terça-feira, março 24, 2015

a brisa do salgueiro e o canto das águas

...
.
tanto tempo passou
e
ainda choras às braçadas,
esperas
ainda vago em ondas,
retorno
tu te derramas no enleio
eu te circundo no abraço
.
sou para ti o perfume
és para mim acalanto
choras por mim de saudade
de saudade corro p'ra ti
.
a cada curva do tempo somos nós diferentes
embora iguais em destino
teus braços transbordando p'ra mim
meu leito se abrindo em fluxo
.
ébrios
realizamos a sina
que para nós foi traçada
.
em um leniente encontro
apenas ligeiro instante
tornamos o beijo molhado
em ato constante
perpétuo

.
¸¸•* *•.¸¸♪♫     

domingo, fevereiro 01, 2015

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LoveDance








domingo, janeiro 25, 2015

DECLARAÇÃO DE AMOR

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Protegida em minha bolha
Não deixo de interrogar
Para mim sei o que és
Não sei o que para ti posso ser
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Trago-te, então para dentro
Na mão do menino esquálido
Pedinte de cola e coca
Acaricio-te sorris e somes
Misturado às gravatas
Aos camelôs em bravatas
Às mulheres que vendem o corpo
Cidadãos sem eira e nem beira
.

Consolo-me na consolação
Do silêncio delirante
Horas tantas badaladas
Largadas pelas calçadas
.

Protegida por claustro seguro
Abro uma pequena fresta
Deixo entrar a acidez
E penso se está tudo perdido
Tens violência e a aridez
Das ruelas esquecidas
Dos rostos das mães nas favelas
Da fome de alimento e de sonhos
.

Tua face mostra as fissuras
Heranças da civilização
Feridas abertas em fosso
Agonia de dor e paixão
.

Protegida em meu carro vermelho
Envolta na tua fumaça
Vejo abrir-se uma nesga
Nas hortas das marginais
Nos jovens de uniforme
Saltimbancos da esperança
Nas flores dos canteiros centrais
E em quem dá a elas o aroma
No rico fazer cultural
Na solidariedade latente
Organizada em mutirões
Nas passeatas cívicas
Exigentes de dignidade
Mestres renomeando a vida
.

Atravesso as tuas veias e campos
Sem mais precisar proteção
Perdida em meio às vontades
Vou nas asas dos pardais
Partilhando madrigais
Me levas a te descobrir
Querendo ser como és
A conservar a magia
Nas vilas, sobrados e avessos
Travestidos na riqueza
De teu povo soberano
Guerreiro que puxa o cimento
Sabe que o belo e o bom
Amanhece trabalhando
.
Segue a divina sina
Do santo que te batiza
Bélico pacificador
És martírio, és enlevo
És betoneira incansável
És útero e uma lágrima
És desafio, és afeto
.

Abaixo o volume do rádio
Premeditando o porvir
Sempre perdendo o rumo
Sempre me encontrando em teus braços
.
De soslaio as desvairadas
Cãs brancas no retrovisor
Mostram-me de que és capaz
Saberás encontrar tua paz
.
Sorrio para ti meu amor
Lanço um íntimo desejo
Quando minh’ alma partir
Peço aos que bem te traduzem
Enterrem meu coração sem titubeios
Nos trilhos que te conduzem
.
.
Dedicado aos homens e mulheres, crianças, adultos e idosos, paulistanos por nascimento ou escolha, todos arquitetos da beleza, tradutores da verdade. Referências que me ensinam a entender e a amar cada vez mais esta cidade.
Dedicado também ao meu carrinho vermelho que me leva pelos caminhos de São Paulo...
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sexta-feira, janeiro 23, 2015

melancolia



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minha pobre cidade rica
és carente, és desvairada,
és sofrida e amargurada
.
és palco de cenas vulgares,
de vaidades baratas,
da insensatez corriqueira
da incapacidade humana de se humanizar
.
minha pobre rica cidade
das tantas pequenas tragédias
também palco de dramas dantescos
cenário macabro

para os sem teto,
sem saúde, sem escola,
sem rumo, sem praça
ou alento
.
minha cidade magoada
em meio a tanta indigência

coragem
.
há os que dependem de ti
há os que muito te amam
e que reúnem a força, a ternura
para em um dia bem perto
te arrancarem da UTI
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quarta-feira, novembro 05, 2014

CENAS

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sábado, outubro 11, 2014

NO DIA DAS CRIANÇAS

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O Velho Lenhador que sempre fora bem-disposto, há várias semanas sentia-se insatisfeito. Nos últimos tempos sua aldeia, à beira da floresta, tornara-se desanimada. Muitas crianças e jovens haviam partido para cidades grandes. Precisavam estudar ou buscar novas oportunidades. A floresta não mais vibrava com o som das reinações infantis. A praça da matriz não mais recebia o alegre vai-e-vem dos footings juvenis. Sentiu que precisava fazer alguma coisa.
Naquele dia acordou mais cedo ainda. Abriu a janela e, como acontecia em todas as manhãs, encontrou o Bem-te-vi.
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- Bom dia, meu amigo. Hoje vamos realizar um trabalho importante. Voe pela floresta acordando a bicharada. Avise a todos que precisamos nos reunir daqui a pouco na nossa clareira. É assunto urgente.
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- É p’ra já... bem-te-vi... bem-te-vi...
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E lá se foi ele.
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O Velho preparou o café, derramou-o na garrafa térmica, reuniu alguns biscoitos, acomodou tudo em seu embornal, assobiou para o Perdigueiro e partiu rumo à clareira.
Chegando lá muitos o esperavam.
.- Estamos preocupados tentando descobrir o motivo dessa reunião, disse o Tigre, assumindo a função de porta-voz dos seres da floresta.
As árvores balançaram seus galhos concordando com o Tigre.
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- Fiquem calmos. Esperem só mais um pouquinho. Logo todos estarão aqui e eu poderei começar a reunião.
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O Morcego piscava duro para espantar o sono. Dona Maritaca e suas irmãs conversavam, fazendo a maior barulhada. O Carvalho, sendo o mais sábio da floresta, tentava pôr ordem naquela bagunça.
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- Olhem! A família Preguiça chegou. Não falta mais ninguém. Podemos começar, disse a Margarida.
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O Velho Lenhador expôs aos amigos o motivo de sua tristeza. Sentia saudades da alegria que crianças e jovens traziam para aquelas bandas. Precisavam trazê-los de volta.
.Seguiu-se uma algazarra, com vozes da vários timbres concordando ao mesmo tempo, até que o Leão rugiu forte. Todos se calaram instantaneamente para ouvi-lo.
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- Vamos anotar as idéias que estão surgindo e criar grupos de trabalho.
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Foi aplaudido.
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- Eu faço a ata da reunião. Era a Coruja, com papel e lápis na mão.
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O Velho deixava que eles se entendessem e se deliciava com o que começava a ser planejado.
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Iniciaram a votação e uma das propostas foi aceita por unanimidade. O passo seguinte foi a concepção de um cronograma. Resolveram que a primeira tarefa seria realizada coletivamente.
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Saíram pela floresta coletando o necessário para a execução do projeto. Troncos e galhos caídos. Penas coloridas que os pássaros soltam durante a troca de plumagem. Folhas, flores, sementes já secas. Até garrafas pet, papéis amassados, saquinhos vazios, cacos de vidro, lixo deixado por turistas inconscientes, tudo que encontrassem seria útil.
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Enquanto isso, o Velho voltou à aldeia para contar os novos planos e convocar pessoas para o trabalho. O senhor Marceneiro mais o Pedreiro juntaram as ferramentas. Prontos a ajudar, todos se reuniram na praça juntando e classificando o material que os bichos traziam. O senhor Sanfoneiro, a menina Flautista e o Mestre do bandolim puseram-se a ensaiar antecipando o clima da festa.
Criaram grupos de especialistas e... mãos à obra.
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Os pássaros, sob o comando do Bem-te-vi, foram despachados para todos os recantos do país, convidando os filhos da aldeia para o grande acontecimento. O Elefante ficou encarregado de organizar seus pares nos trabalhos mais pesados. O Esquilo e seus irmãos traziam as frutas para alimentar o pessoal. Dona Rosa agrupava as flores em ramalhetes. Dona Boleira, claro, fazia bolos e quitutes. Os cachorros abanavam os rabos.
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Foram 24 horas de trabalho incansável. Nosso bom homem era só cuidado. Ao nascer do sol, tudo pronto. A satisfação era vista em todos os olhares.
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Aos poucos os convidados começaram a chegar. Extasiados com a novidade. A roda gigante rodando. O algodão doce adoçando. Os braços se abraçando. O trem fantasma fantasmarogando.
Barracas, balas, balões fabricados com todo esmero era embalados pela música e pelas risadas.
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E o carrossel! Nunca se vira algo assim. Um carrossel com cavalos de verdade. Cheios de pose, enfeitados com plumas e flores faziam a alegria de crianças e adultos.
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Anoitecia e todos já se entristeciam. A cidade não tinha luz elétrica. Na escuridão ficaria impossível continuar os folguedos.
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Foi quando o Papagaio interrompeu, por alguns instantes, os pares que dançavam no coreto para anunciar mais uma atração. A um aceno seu, tudo se iluminou. Uma grande nuvem de luz sobrevoou a aldeia.
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- E vocês pensaram que os vaga-lumes iam ficar fora dessa?
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A Igreja Matriz que até então permanecera quieta, iluminou-se por si enquanto fazia soar os seus sinos
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Os aplausos ecoaram pela aldeia e a diversão continuou cheia de brilho.
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O Velho sentado no banco da praça mordiscando uma maçã do amor se encantava com o resultado de tanto trabalho. A algazarra das crianças, as paqueras dos jovens, os amigos-bichos, os amigos-gentes, os amigos-plantas, todos reunidos em um único reino. O da fraternidade.
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Olhando aquele imenso Parque de Diversões plantado no meio da praça nem sabia mais se estava acordado ou se cochilava. 

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Se realidade ou sonho? Não importa. 
.Nosso bom homem era só contentamento.
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Dedicado aos meus NETOS e aos afilhados que a VIDA me deu.
No dia das crianças... beijos, carinho, Galera!
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Meus agradecimentos ao Jadon, meu revisor.
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terça-feira, setembro 09, 2014

A torre

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Era apenas uma torre à beira-mar fez sua morada a convite e sob a proteção de Pedro. Os dois se revezavam na vigília. A cada navio que apontava no horizonte desciam os 456 degraus em correria. Desembestavam pelas areiasAntes que Pedro conseguisse chegar à praiaele sendo mais vigoroso
 estava pulando para dentro da pequena canoa. Ajudava seu benfeitor a subir e remava com todas as suas forças até o navio, a essas alturas, fundeado.
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Enquanto Pedro negociava com os feitores a imediata retirada dos mais debilitados, vasculhava os porõesCorpos amontoados, gemidos, o odor repugnante não se constituíam impedimento para a busca. Procurava por sua princesa. Um dia, encontrou-a. Semimorta, suja, a pele em chagasdesmemoriadaNem o reconheceu.
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Com dificuldade, driblando a vigilância, carregou-a até o esconderijoNinguém os seguira. Durante várias luas alimentou sua princesa. Sempre cantando as cantigas que os grilhões não conseguiram espantar, banhava-a.  Até que começou a ouvir aquela voz afinada, que tão bem conhecia, fazendo dueto com a dele. Ela se recuperava visivelmente. Os olhos negros tão familiares voltavam abrilhar. Contava a ele de como se sentiu perdida no dia em que foram violentamente separados. Da saudade em que se transformou sua vida. Descrevia também os efeitos da violência. A aldeia vazia. Dizimada. Remanescentes,  os velhos e as velhas. Até as crianças foram acorrentadas e arrastadas. Ele também falava a ela das dores que vivera. A dor de não conseguir compreender a razão de tudo aquilo que lhes acontecera, de se ver sem chão, da saudade e do medo de nunca mais revê-la. Da dor do tronco no qual constantemente pagara por conservar a altivezUm homem
revestido de nobreza não poderia se renderNunca. Contou-lhe ainda dabondade de Pedro que um dia o acolhera. Tinha perdido os sentidos depois de um sem
número de chibatadas e Pedro o recolhera no instante em que os feitores  o davam como mortoDesde então vivia naquela torre.
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Os dias passavam e os dois príncipes negros construíam uma
rotina de carinhoslembranças e sonhosSonhos de correr pelas matas, dos festejos na aldeiaSonhos de reencontrar os filhos que lhes foram
covardemente subtraídos. O corpo dela respondia aos cuidados. Arredondava-se. Sua pele cintilava. Os dois sentiam suas carnes arderem clamando por alforria.
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Pedro, homem sensível, inventou uma viagem. Jogou sobre o ombro esquerdo a bolsa de couro surrado em que guardava o manual eclesiástico, óleo consagrado, uma cruz e uma muda de roupa. Abençoou-os. Ausentou-se por três dias
três noites.
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Tempo suficiente para que uma simples torre à beira-mar se transformasse em castelo. E naquele momento os dois corações experimentaram uma enorme alegria. Estavam plantando uma semente. A de um novo reino, uma nova dinastia. A de um ébano a tal ponto soberano que tornaria impossível ao faro dos capitães-do-mato alcançar.
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Na terceira noite uma estrela brilhou. Pedro olhando-a entendeu que seus esforços não seriam em vão. A esperança renasce sempre que o amor se realiza. E os escravos dos quais cuidava com tanto carinho um dia, longe ou perto, ergueriam uma nação livre. Sorrindo viu que era hora de voltar. Havia ainda muito a fazer.
 .
(Dedicado a São Pedro Claver)


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domingo, janeiro 12, 2014

gotejante




................................................enquanto a chuva caía
................................................deixei que a alma dormisse
................................................à espera do novo
................................................não aquele que chega
................................................a explodir os tímpanos
................................................e a socar o estômago
................................................mas o que goteja
................................................minuto a minuto
................................................fazendo das horas
................................................quando solitárias,
................................................serenas
................................................se agrupadas,
................................................amorosas
...
..........................................
..................................
........... ...................................................................mais um ano se inicia
seguiremos renovadamente os mesmos.......
ou rotineiramente novos..............
não importa.......
   desde que nossos passos............
sejam os da delicadeza.......
.........
............. ...
 .AdéliaTheresaCampos.........

sexta-feira, outubro 25, 2013

UMA LENDA

a tanto sobreviveu
à fome, à sede,
aos maus tratos.
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menino valente
sobreviveu ainda
à estrada poeirenta,
à boleia do caminhão,
ao desamparo.
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jovem intrépido resistiu
às perseguições, à intolerância,
às injustiças, em luta.
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adulteceu íntegro
cortando a própria carne.
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reconheceu-se homem
repartindo seus passos firmes.
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ao se aproximar da velhice
sem mais nem menos resolveu
que não mais viveria
sem os brinquedos
que a infância lhe negara.
comprou um avião.
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não mais adotaria farrapos.
mandou talhar nobres vestes.
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não mais partilharia passos com poeira.
instalou tapetes ao seu redor.
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deliciou-se em letícia.
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... e nunca se viu
na história daquele reino
figura mais trôpega.
.
(uma pequena contribuição para os futuros contadores de história)
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terça-feira, outubro 15, 2013

CORRESPONDÊNCIA DE AFETO


Querida,
..
Há quanto tempo não vens
minha amiga e conselheira
Sem teus ventos e sopros
sinto a alma migrar
para longe d’Ele e de mim
Me abandonas assim
Só

.
Permites que eu solte
o espírito desbaratado
corisque de um mote a outro
como cavalo desenfreado

.
Às apalpadelas
vivo o desatino
destino do desamparo
ou porões, minha morada

.
Peço que novamente me indiques
- há tempos dela me perdi -
os caminhos da paciência

.
Vem, sinto tua falta
traze teus sugestivos versos
tuas dores e contentamentos
tuas agonias e o enlevo
tua elegância

.
És sempre bem-vinda
mesmo quando tumultuas
- e quantas vezes o fizeste -
minha já tumultuada mente,
meu desgovernado coração

.
Vem e o segredo virá
- pois bem sinto mora em ti –
fazendo-se inspiração revelada

.
E, se não for muito o pedir,
ao vires traze
os ares e o canto das aves de Ávila
para que eu pressinta
– e apenas pressentir já é alívio–
o despertar da beleza

.
Sabendo que és puro desvelo
eu atenta discípula me quedo
com carinho espero
por teus sinais, até mais...

Teus ais pude daqui ouvir,
sobrinha querida,
e preciso dizer-te
que Ele de ti não se descuida.
E lembra-te...
.
O amor, quando já crescido,
Não pode ocioso ficar,
Nem o forte sem lutar,
Por amor de seu Querido.
Deus, de seu amor vencido,
Sempre o fará vencedor.
Que será ver-te, Senhor?
 


Quinze de outubro
é o dia dedicado a
Santa Teresa de Ávila
de quem tomei uma estrofe
do poema “A Santo André” para compor
esta troca de cartas.
Os trechos em itálico são de Santa Teresa.
 


 

sábado, setembro 21, 2013

TERNAMENTE

De coração de mãe,
Do sentimento do pai,
Tanto se fala e se canta
Mas e da tia
O que se diz afinal
De quem não teve no ventre
O ser que seria metade
Da genealogia e futuro

.
Espécie de espectadoras
Nós duas, sobrinha querida
Parece que temos
Uma dimensão comum
És um olhar em demanda
Sou demanda no olhar
Te sentes quase uma filha
De minha parte, quase mãe
E sem nada sermos
A não ser partes de um quase

Quase nada
Quase tudo
Nos ofertamos na dor
Mútua resistência e vigília
Da existência pressentida
Apenas ternuras em laço
Simples ato de afeto
Este sim, bem mais do que um quase...
Pois sendo simples, completo.
.
(Postado originariamente em setembro de 2005)

sexta-feira, novembro 09, 2012

 
 
De tanto pisar asperezas, meus pés sangravam. Açoitados pelo sol meus olhos ardiam, pareciam sangrar também. Se o calor do dia no deserto esfolava a pele, o frio da noite chagava a alma. E eu sozinha, perdida em minha caminhada. Ao longe via o que mais me parecia miragem. Uma fogueira. Enlouquecia, pensei, pois até ouvia conversas de um grupo animado. Cautelosamente me aproximava, quando alguém começou a salmodiar marcando o canto com pausas insinuantes. Seus ecos ressoavam por toda parte. Parei para melhor escutar e nem percebi um vulto desgarrando-se do conjunto e vindo em minha direção. Filha! Assustei-me com aquela aproximação e com o chamado. Uma mulher. Olhando-a bem de perto pude ver. Belíssima. Pegou-me pela mão e sem dizer mais nada me levou para perto do fogo.  A roda se abriu para me dar passagem. Vi diversos sorrisos de acolhimento. Ela me entregou uma taça de vinho, algumas tâmaras, um pedaço de pão.  
A mesma voz, poderosa e suave, forte e doce, ao terminar o salmo, passou a contar seus planos. Estaremos sempre juntos e caminharemos para um reino onde todos serão tratados como filhos do rei... você também, se quiser... dirigindo-se a mim. Eu encantada. Ele respondia às perguntas que lhe eram feitas com paciência e certeza. Contava. Sim, na casa de meu pai cada um é filho também amado. Basta querer. Aos poucos, o cansaço foi se mostrando. Eu nem havia percebido que era tanto. Tentava manter os olhos e ouvidos bem abertos. Não queria perder uma palavra das histórias que estavam sendo contadas. Acomodei-me, encostando a cabeça no ombro da mulher que me chamara de filha. Ela me cobriu com seu manto. Ainda escutando aquela voz, as interrogações e a alegria do restante do grupo e sentindo o suave toque das mãos de minha mais nova amiga, em meus cabelos, adormeci.
Na manhã seguinte fui acordada pelo mesmo chamado. Filha!
Envolveu-me em seu olhar. Entregou-me um par de sandálias. Você vem? Impossível recusar tal convite depois de tão sofrida e solitária jornada. Ao meu sinal afirmativo, disse-me: você não é mais sozinha, mas desta grande família. Vamos! Vamos em busca do reino. Meu filho nos guiará.
 



quarta-feira, março 07, 2012

Maria

Envolta em tules
Os cabelos coroados por pequenos botões de rosas

Iluminada por duas velas apenas
Prendias meu olhar
Admirável visão impressionista
Da santidade escondida
.
Os lilases de tuas lágrimas
Atraíam-me para atrás de ti seguir,
Caminhar-te em afinidades
Mãe que é abraço, é ombro
E para além do habitual
Tomar do filho o sofrer
Sofrendo-o na própria carne
.
Única marca de tua humanidade
Oculta pelo tecido da dor
.
Eras minha quase identidade
Quando o cortejo estancou
Parte do véu desdobrado
No doce olhar de desvelo
Ofertado junto a uma flor
Rendida nas mãos de tua graça
.
Tu te mostravas dengosa
Aceitavas ser cortejada
.
Revelavas neste instante
Um elo que me faltava
Tinhas sensualidade e fascínio
Encantamento e o poder
.
Seduzias!
.
Foi preciso que te cobrisses
Para que eu desvendasse
Visse além da dor e de véus
Da pureza preservada
Mais um sinal da mulher
Ícone, laço, arcano
Anima a te entretecer em mim.
.
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