sexta-feira, janeiro 25, 2008

SÃO PAULO - SONHO DE FELIZ CIDADE



no teu aniversário
a garoa envolveu o dia
cobriu a concretude
suavizou linhas e relevos
trouxe uma saudade agradável
daqueles tempos de infância
junto à sensação de aconchego
de colo
que só a mãe sabe dar

.tão suave estavas
silenciosa até
pude ver-te do avesso

.linda

.minha cidade
és tão imprevisível, perturbadora

. és tão louca
ou
a louca sou eu
que apesar das tuas tantas contradições
não consigo deixar de te amar

.
(Foto by Lilly)

sábado, janeiro 19, 2008

a brisa do salgueiro e o canto das águas

.
tanto tempo passou
e
ainda choras às braçadas, esperas
ainda vago em ondas, retorno
tu te derramas no enleio
eu te circundo em abraços
.
sou para ti o perfume
és para mim acalanto
choras por mim de saudade
de saudade corro p’ra ti
.
a cada curva do tempo somos nós diferentes
embora iguais em destino
teus braços transbordando p’ra mim
meu leito se abrindo em fluxo
.
ébrios
realizamos a sina
que para nós foi traçada
.
em um leniente encontro
apenas ligeiro instante
tornamos o beijo molhado
em ato constante
perpétuo
.
... //...
.
foto: http://oblogdospelachos.blogaliza.org/
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domingo, janeiro 06, 2008

na manhã de domingo


f
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estava pronta para ler um paulo coelho, escutar altemar dutra,
desafogar em uma lata de sorvete (inteirinha)
minha angústia e minha desolação
mas
antes resolvi puxar a cortina
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uma réstia de sol desvendava o contorno do bairro
fazia brilhar o espigão da paulista
.
a cidade despertava
surda às aflições que algumas persianas resguardavam
indiferente aos risos que escapavam de janelas escancaradas
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um cachorro latiu puxando o coro
uma leve brisa trouxe o perfume das rosas
o beija-flor me espiou de relance e se foi
.
e eu prostrada
.
quantas manhãs semelhantes já se repetiram
quantas vezes vi a cidade impassível
quer chova ou faça sol
.
talvez jogue paulo coelho para longe
cante aos berros com diana krall
e descubra enfim o que se move
bem aqui
under my skin
.
comigo sou só
estou por minha conta

.
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quinta-feira, dezembro 27, 2007

ANIVERSÁRIO


O que são três anos
O que pode representar tão curto espaço de tempo
frente ao tempo
Para alguns setores de minha vida
foram acréscimo
Em outros, perda
No trabalho, o empenho de sempre
Com a família, algumas aflições,

muitas alegrias
Os netos moços companheiros
A neta, que ainda nem existia, correndo pela casa

- vovó!
Os amigos, sempre amigos queridos
.
E os escritos...
Hoje o “Oceanos e Desertos” completa três anos
Fui tentada a fazer um balanço
do que vivi nesse espaço
Não mais rascunhos

em pedacinhos de papel
amassados e esquecidos

no fundo de bolsas e gavetas
Até minha rotina se modificou
Quando nas profundezas do oceano
prestes a perder o fôlego

encontro aqui uma ilha aprazível
Das areias quentes dos desertos
ressequida pela sede

deparo-me com meu oásis
Se o sol é tépido e a brisa fresca
trato de falar de amor
E escrevo, reviso, procuro a palavra certeira
Tento dar a melhor forma

para a inquietação do momento
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Aqui celebro alegrias
Aqui depuro minhas dores
Aqui canto o amor
.
Ah, as letras impressas na tela
Mostram-me o que escondo de mim
Às vezes volto a textos antigos arquivados
Quando os releio sinto que recupero minha história
E os comentários, então, até hoje, causam enorme prazer
Chego a ter a ilusão de ser uma poetisa de verdade
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Mas o melhor de tudo, é a teia que tecemos
Sinto-me privilegiada
Muitas faces nem conheço
Conheço palavras
impressões digitais dos corações
Lindos corações que se unem e se irmanam
Somos uma comunidade original
Estamos construindo uma nova forma

de relacionamento humano
Poder, riqueza e perfeição física

deixam de ser valores
O que nos cativa é a verdade da palavra
Daquela que brota pura
Direto da alma
Mostrando a beleza

inerente a toda criatura
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Três anos e uma nova dimensão
Um novo ponto de vista
Pessoas maravilhosas
Um novo mundo
Uma grande felicidade
.
Agradeço a todos os amigos e amigas
por tão enriquecedora convivência

nesse tempo-espaço.
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Beijos, carinho e...
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FELIZ ANO NOVO!!!
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terça-feira, dezembro 25, 2007

domingo, dezembro 09, 2007

PERFIL ÀS AVESSAS

Mãos sobre o teclado, um olhar de soslaio, o encontro com o espelho. Sou o que vejo e disso já estou cansada. Escolho pinçar no nome aquilo que quero ser. E saio por aí a sondar inspiração alheia.
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De ti, Adélia, invejo e confesso, mais do que a poética, roubo-te a maturidade, a aceitação mineira do fortuito, do inevitável e da busca no profano o que divino resta. Serena palavra ao encontro de ti mesma de verdade tanta, incontestável manto. Quero como tu, entardecer-me fé
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De ti, Teresa, invejo e confesso, mais do que a visão profética, roubo-te o desejo da morte, se está longe o amado, a coragem santa expondo o próprio ventre, a alegria na agonia da entrega em labaredas ao abraço de Jesus. Espero ao anoitecer-me fé queimar-me na verdade como tu fizeste.
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Nos Campos quanto há mais para se voejar. Roubo-lhes o arejado em rente, a ruptura, o descontínuo espaço. Desconstrução real, falácia verdadeira, verso em espiral. Rima derradeira, traços no papel.
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E o que mais aspirar posso do viver na expressão.
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quarta-feira, novembro 21, 2007

ANATOMIA DE UM PESADELO

I
A PRIMEIRA MULHER
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De mãos dadas entramos no saguão do cinema. Vozes indistintas provocavam o zunido típico de sala de espera. Encontrando uma cadeira vazia, acomodei a menina. Sentei-me no chão ao seu lado. No canto oposto, a bomboniere rodeada de gente. Um ar estranho envolvia a cena. Não saia daí, foi a minha recomendação, desnecessária talvez, vou comprar umas balinhas. Ao apoiar a mão no piso para me erguer, apalpei um objeto. Estranho, o que fazia ali um revólver? Levantei-me já com ele nas mãos. Com dificuldade abria caminho entre aquelas pessoas sem rosto quando percebi um bando anunciando o assalto. Uma mulher de longos cabelos castanhos, vestida de guerrilheira liderava o grupo. Tentei me esconder, mas fui farejada. Ela agitou o revólver em minha direção, e eu voltei. Apenas com sinais, a mulher me intimou a lhe entregar o revólver. Abaixei-me e, com um leve impulso, fiz com que a arma deslizasse pelo chão de granito.
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II
A SEGUNDA MULHER
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Quando anunciamos o assalto, as conversas cessaram imediatamente. Pessoas sem rosto olharam-nos assustadas. Ninguém se mexia. Parecia que tínhamos o controle quando percebo aquela mulher de longos cabelos encaracolados se esgueirando contra a parede. E o que fazia ela com uma arma na mão? Apontei-lhe a minha. Ela recuou enquanto eu atravessava o saguão sem perdê-la da mira. Quando ela chegou ao lado da menina, fiz-lhe sinais para que me entregasse o revólver. Os sem-rosto colados à parede abriram um vazio no meio da sala. Ela, abaixando-se, empurrou o revólver em minha direção. Ele veio deslizando, girando, assobiando, produzindo um leve sussurro que me deixou extasiada.
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III
A MENINA

Atravessamos as portas de vidro e entramos na sala de espera. Um grande grupo aguardava o fim da sessão. Corpos sem rosto se amontoavam contra as paredes. Alguns em volta da bomboniere conversavam. O som das vozes parecia um ataque de abelhas. A recomendação, como se eu pudesse sair, pareceu sem propósito. Ela sabe que não posso. Tenho medo de gente. Tenho medo de gente sem rosto. Tenho medo de vozes, de zumbido de vozes. Tenho medo. De soslaio, acompanhei os movimentos dela. De onde saiu aquele revólver? Enrosquei as mãos em um cacho do cabelo, abaixei a cabeça, olhei para dentro e comecei minha dança. Para frente, para trás, para frente, para trás, naquela cadência que sempre chegava junto com o medo. De repente, o silêncio me paralisou. Levantei os olhos e vi. Uma mulher golpeava o chão com as botas e balançava uma arma. A outra voltava se esgueirando. Penso se ainda poderei me apossar do revólver. As duas olham-se fixamente. Enfrentam-se. A minha acompanhante se abaixa, a luta está perdida, empurra o revólver pelo chão em direção à mulher de botas. Traçando uma diagonal, ele se vai rodopiando em valsa, levando junto o meu olhar estático. O que fazíamos ali? A mulher, outra mulher, eu menina, as três únicas com rosto? Enrosquei as mãos em um cacho do cabelo, abaixei a cabeça, olhei para dentro - para frente, para trás, para frente – pêndulo invertido, não via mais ninguém. E ninguém me via.
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(Dedicado a CJ)
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domingo, novembro 11, 2007

ACASO OU SINAL?

Você se aproximou. Tocou o meu ombro. Seus lábios roçaram minha face. Gestos absolutamente formais não fosse a cena que se seguiu. O botão de seu punho enroscado em meus cabelos não permitia que nos separássemos. E quanto mais tentávamos mais se embaraçava o nó.
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Acaso ou sinal?
..
Sina... de enleados caminhantes.
..
(Dedicado a CJ)
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segunda-feira, novembro 05, 2007

susto

no travesseiro que era para ser só alfazemas
pousa o trevo de três folhas
inerte, sem graça, sem significado algum
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naquela manhã queria dizer
algo de esperança
ou vingança
algo de amor
ou desespero
nunca do vago
espaço em branco
colcheia vazia
regendo passos ao léu
conduzindo a suspeita
se vale dormir
se o sono não sonha
nem pesadelos produz
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se a rosa ferida
se o cravo, coitado...
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bem-me-quer-mal-me-quer
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o vento se foi
levando o jardim e seus sons
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acorde
.
ou
.
durma
.
a poesia acabou

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sexta-feira, outubro 12, 2007

NO DIA DAS CRIANÇAS

HISTÓRIAS DO VELHO LENHADOR
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O Velho Lenhador que sempre fora bem-disposto, há várias semanas sentia-se insatisfeito. Nos últimos tempos sua aldeia, à beira da floresta, tornara-se desanimada. Muitas crianças e jovens haviam partido para cidades grandes. Precisavam estudar ou buscar novas oportunidades. A floresta não mais vibrava com o som das reinações infantis. A praça da matriz não mais recebia o alegre vai-e-vem dos footings juvenis. Sentiu que precisava fazer alguma coisa.
Naquele dia acordou mais cedo ainda. Abriu a janela e, como acontecia em todas as manhãs, encontrou o Bem-te-vi.
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- Bom dia, meu amigo. Hoje vamos realizar um trabalho importante. Voe pela floresta acordando a bicharada. Avise a todos que precisamos nos reunir daqui a pouco na nossa clareira. É assunto urgente.
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- É p’ra já... bem-te-vi... bem-te-vi...
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E lá se foi ele.
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O Velho preparou o café, derramou-o na garrafa térmica, reuniu alguns biscoitos, acomodou tudo em seu embornal, assobiou para o Perdigueiro e partiu rumo à clareira.
Chegando lá muitos o esperavam.
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- Estamos preocupados tentando descobrir o motivo dessa reunião, disse o Tigre, assumindo a função de porta-voz dos seres da floresta.
As árvores balançaram seus galhos concordando com o Tigre.
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- Fiquem calmos. Esperem só mais um pouquinho. Logo todos estarão aqui e eu poderei começar a reunião.
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O Morcego piscava duro para espantar o sono. Dona Maritaca e suas irmãs conversavam, fazendo a maior barulhada. O Carvalho, sendo o mais sábio da floresta, tentava pôr ordem naquela bagunça.
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- Olhem! A família Preguiça chegou. Não falta mais ninguém. Podemos começar, disse a Margarida.
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O Velho Lenhador expôs aos amigos o motivo de sua tristeza. Sentia saudades da alegria que crianças e jovens traziam para aquelas bandas. Precisavam trazê-los de volta.
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Seguiu-se uma algazarra, com vozes da vários timbres concordando ao mesmo tempo, até que o Leão rugiu forte. Todos se calaram instantaneamente para ouvi-lo.
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- Vamos anotar as idéias que estão surgindo e criar grupos de trabalho.
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Foi aplaudido.
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- Eu faço a ata da reunião. Era a Coruja, com papel e lápis na mão.
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O Velho deixava que eles se entendessem e se deliciava com o que começava a ser planejado.
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Iniciaram a votação e uma das propostas foi aceita por unanimidade. O passo seguinte foi a concepção de um cronograma. Resolveram que a primeira tarefa seria realizada coletivamente.
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Saíram pela floresta coletando o necessário para a execução do projeto. Troncos e galhos caídos. Penas coloridas que os pássaros soltam durante a troca de plumagem. Folhas, flores, sementes já secas. Até garrafas pet, papéis amassados, saquinhos vazios, cacos de vidro, lixo deixado por turistas inconscientes, tudo que encontrassem seria útil.
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Enquanto isso, o Velho voltou à aldeia para contar os novos planos e convocar pessoas para o trabalho. O senhor Marceneiro mais o Pedreiro juntaram as ferramentas. Prontos a ajudar, todos se reuniram na praça juntando e classificando o material que os bichos traziam. O senhor Sanfoneiro, a menina Flautista e o Mestre do bandolim puseram-se a ensaiar antecipando o clima da festa.
Criaram grupos de especialistas e... mãos à obra.
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Os pássaros, sob o comando do Bem-te-vi, foram despachados para todos os recantos do país, convidando os filhos da aldeia para o grande acontecimento. O Elefante ficou encarregado de organizar seus pares nos trabalhos mais pesados. O Esquilo e seus irmãos traziam as frutas para alimentar o pessoal. Dona Rosa agrupava as flores em ramalhetes. Dona Boleira, claro, fazia bolos e quitutes. Os cachorros abanavam os rabos.
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Foram 24 horas de trabalho incansável. Nosso bom homem era só cuidado. Ao nascer do sol, tudo pronto. A satisfação era vista em todos os olhares.
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Aos poucos os convidados começaram a chegar. Extasiados com a novidade. A roda gigante rodando. O algodão doce adoçando. Os braços se abraçando. O trem fantasma fantasmarogando.
Barracas, balas, balões fabricados com todo esmero era embalados pela música e pelas risadas.
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E o carrossel! Nunca se vira algo assim. Um carrossel com cavalos de verdade. Cheios de pose, enfeitados com plumas e flores faziam a alegria de crianças e adultos.
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Anoitecia e todos já se entristeciam. A cidade não tinha luz elétrica. Na escuridão ficaria impossível continuar os folguedos.
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Foi quando o Papagaio interrompeu, por alguns instantes, os pares que dançavam no coreto para anunciar mais uma atração. A um aceno seu, tudo se iluminou. Uma grande nuvem de luz sobrevoou a aldeia.
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- E vocês pensaram que os vaga-lumes iam ficar fora dessa?
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A Igreja Matriz que até então permanecera quieta, iluminou-se por si enquanto fazia soar os seus sinos
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Os aplausos ecoaram pela aldeia e a diversão continuou cheia de brilho.
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O Velho sentado no banco da praça mordiscando uma maçã do amor se encantava com o resultado de tanto trabalho. A algazarra das crianças, as paqueras dos jovens, os amigos-bichos, os amigos-gentes, os amigos-plantas, todos reunidos em um único reino. O da fraternidade.
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Olhando aquele imenso Parque de Diversões plantado no meio da praça nem sabia mais se estava acordado ou se cochilava.

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Se realidade ou sonho? Não importa.
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Nosso bom homem era só contentamento.
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... //...
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Dedicado aos meus NETOS e aos afilhados que a VIDA me deu.
No dia das crianças... beijos, carinho, Galera!
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Meus agradecimentos ao Jadon, meu revisor.
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segunda-feira, outubro 08, 2007

VERTIGENS

Nem preciso sair do lugar
O mundo rodopia por mim
São rostos, olhares, esquinas, tijolos
Pedaços
Sem feitio-contorno-sentido
Em dúbio mosaico
Vitral impreciso
Por onde as cores se formam-alternam-deformam
E os raios do sol são rascunhos de luz
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Dias escuros
Noites insones
Manhãs desbotadas
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(tem horas em que até o tempo se faz carrossel)
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Mas
Se sou ontem e amanhã
Meu coração sem motivo
Espera
Se apruma
Confia
Se rende
Perfuma
Se prende

No teu rodopio
Se entrega

A teu sopro
Teu fogo
Teu hoje
Teu beijo

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(tem horas em que é o coração a se fazer carrossel)
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quinta-feira, outubro 04, 2007

NO DIA DE SÃO FRANCISCO

"O coração de Francisco significa um estilo de vida, a expressão genial do cuidado, uma prática de confraternização e um renovado encantamento pelo mundo. Recriar esse coração nas pessoas e resgatar a cordialidade nas relações poderá suscitar no mundo atual o mesmo fascínio pela sinfonia do universo e o mesmo cuidado com irmã e mãe Terra como foi paradigmaticamente vivido por São Francisco."
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(Leonardo Boff)
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www.franciscanos.org.br
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segunda-feira, outubro 01, 2007

A SANTA DAS ROSAS

“Para mim, a Oração é um desabafo ardente do coração,
um grito de reconhecimento e de amor,
quer no meio da tribulação,
quer no auge da alegria!
É uma força misteriosa e sobrenatural
que dilata a alma e a une a DEUS.”
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(Santa Teresinha do Menino Jesus)
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sexta-feira, junho 08, 2007

REAÇÃO

Na esquina do desamparo
dois olhares me encontraram
De tanta e profunda dor
que o sol se apagou de repente
O semáforo acendia verde
e eu estática
com medo de pisar lágrimas
Cruzamos os olhos novamente
Sorri
Sorriram, estenderam as mãos magras e frias
Enlacei-as
A luz travada no verde era um convite
Do outro lado, a quina do sol,
uma barra de chocolate, um cachecol xadrez
Atravessamos correndo
de mãos dadas
antes que o vermelho voltasse



(dedicado a V e L)
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sexta-feira, maio 25, 2007

O VELHO

Na esquina da surpresa
o velho deitava os ouvidos
já que os olhos secos não sabiam
para onde olhar
Era tanto o encantamento
que delirava música
com o simples assobiar do vento
Os dias assim se passaram
e ele já nem mais se importava
Incorporou as batidas
do surdo fundo da fome
aos violinos do vento
Transformou em manto
o paletó roto sem cor
Em coroa, em pedrarias
a propaganda desbotada do boné
Bastou um leve ressonar
sobre antigas notícias de jornal
para que tomasse posse
de tão nova realidade
Elevado a majestoso maestro
regia o concerto

em uma esquina qualquer
do reino da liberdade

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E os passos dos apressados não perceberam
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(dedicado a Roberto)
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quarta-feira, maio 16, 2007

reflexo

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na esquina da surpresa
esqueceu o embrulho
que abrigava a traição
..
e nunca mais
suas penas se agitaram
ou viram verso

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(dedicado a Décio Pignatari)
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quinta-feira, maio 03, 2007

Quarta Parada

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Mãe deixa a filha e se vai. É tanta dor que mergulho nas lágrimas alheias. Os perfumes das flores misturam-se, provocam náusea e sufocam um grito. Vozes graves desejam força. Fico pensando se é de força que precisamos nessas horas. Eu prefiro a fraqueza. Para chorar, perder os sentidos ou fazer alguma loucura. Ao pé do caixão – nem a conhecia – reflito clichês. A luz das velas levam o pedido. Que Maria a receba e acolha. Enquanto afivelam as cintas abraço os netos, procuro olhos amigos úmidos. Últimas amarras antes da liberdade.
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(dedicado à Rosana que ainda chora)
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