Falar de amor dá arrepio
O assunto é desafio
É ter a alma por um fio
Sentir-se sempre no cio
.
É maquiar cara de cínica
Ouvir Simone e ser tímida
Olhar-se no espelho, mínima
.
Fingir que não está nem aí
Tendo aos saltos o coração
Responder "nem te ouvi"
Quando olhada com paixão
.
Mas se o doce olhar vai embora
Cansado de tanta espera
Madalena desespera
Chora, esperneia, tece a hora
Faz melodrama barato
Corre atrás de seu guerreiro
E se o amor for verdadeiro
Logo no primeiro ato
Tem-no para si, por inteiro
.
Lá vai ela segura
De novo desdenha o amado
Esquece toda a ternura
.
Sem procurar entender
Ele sai logo à procura
De quem não o faça magoado
Desse mal não quer sofrer
.
São jogos bem engraçados
Dos velhos tempos de Adão
Os dois andam separados
E se ao invés de apavorados
Assumem-se enamorados
Provocam do amor a explosão
.
Hoje a experiência festejo
Mais velha me regozijo
Quando m’ olham com desejo
Se for pra perder o ensejo
Perco bem antes o juízo.
.
... //...
.
Republicação... e continuo dedicando aos que, por amarem o amor, cultivam possibilidades.
.
Minhas referências: Mark Twain, Ivan Lins e Joyce.
.
segunda-feira, junho 12, 2006
quarta-feira, junho 07, 2006
lembranças de uma noite de maio
e muito havia de veludo
no hiato que tua voz ditou
desenhadas sobre o tecido
rosas te faziam alumbrado
as cores, a luz, o pacto
..
já não precisavas da fala
sorrias, apenas sorrias
.
(dedicadas ao amor)
.
no hiato que tua voz ditou
desenhadas sobre o tecido
rosas te faziam alumbrado
as cores, a luz, o pacto
..
já não precisavas da fala
sorrias, apenas sorrias
.
(dedicadas ao amor)
.
segunda-feira, junho 05, 2006
na manhã de segunda-feira
colhi imagens antigas
que falassem de ti
muitas delas rebuscadas
indecifráveis
algumas até bonitas
outras assim, assim
.
letras soltas ao espaço
pegadas deixadas
com intencional acaso
fachos de luz se entranhando em mim
veludos me deitando em chamas
jeito alado a me buscar serena
.
tuas pernas
tuas mãos
teus olhos
tua boca
.
seriam partes
de um amor
retalhado
ou a incapacidade de dizê-lo
inteiro
.
hoje nada é para mim espelho
as metáforas não têm sentido
meu viver que é completo
exige o simples
o direto que perdure
o mais antigo e pleno verso
único fim de meu canto
o melódico
eu te amo
.
que falassem de ti
muitas delas rebuscadas
indecifráveis
algumas até bonitas
outras assim, assim
.
letras soltas ao espaço
pegadas deixadas
com intencional acaso
fachos de luz se entranhando em mim
veludos me deitando em chamas
jeito alado a me buscar serena
.
tuas pernas
tuas mãos
teus olhos
tua boca
.
seriam partes
de um amor
retalhado
ou a incapacidade de dizê-lo
inteiro
.
hoje nada é para mim espelho
as metáforas não têm sentido
meu viver que é completo
exige o simples
o direto que perdure
o mais antigo e pleno verso
único fim de meu canto
o melódico
eu te amo
.
quinta-feira, junho 01, 2006
O PÁSSARO
Tu que preso à parede estás
Sabes que inoportuno és
Ao continuamente
Lembrar-me as horas?
.
Insensível carcereiro
De tua gaiola espalhas
Sobre mim os gradis de um presídio
Enquanto continuas atado
Às tuas próprias correntes
.
Oscilando anuncias
Que até mesmo o porvir
É tempo que chega perdido
.
No teu insano vaivém
Nem percebes o mote
Do Lullaby of Birdland
Girando na minha vitrola
Surdo por teu próprio grito
Por mais que eu alterne o canto
Com terceiras intenções
Cumpres o teu irritante moto
.
Sem sucesso arrisco
Arrancar-te de tua prisão
Arisco, não te abalas, não aceitas
O codinome beija-flor
Que tento a ti dedicar
.
Não vês, impassível ave
De nome cuco sem rima
No meu presente a oferta
Um rumo
A liberdade para o teu vôo
Alforria para meu cantar
.
(Dedicado a Foster e Shearing e a Cazuza, Reinaldo Arias e Ezequiel Neves)
.
Sabes que inoportuno és
Ao continuamente
Lembrar-me as horas?
.
Insensível carcereiro
De tua gaiola espalhas
Sobre mim os gradis de um presídio
Enquanto continuas atado
Às tuas próprias correntes
.
Oscilando anuncias
Que até mesmo o porvir
É tempo que chega perdido
.
No teu insano vaivém
Nem percebes o mote
Do Lullaby of Birdland
Girando na minha vitrola
Surdo por teu próprio grito
Por mais que eu alterne o canto
Com terceiras intenções
Cumpres o teu irritante moto
.
Sem sucesso arrisco
Arrancar-te de tua prisão
Arisco, não te abalas, não aceitas
O codinome beija-flor
Que tento a ti dedicar
.
Não vês, impassível ave
De nome cuco sem rima
No meu presente a oferta
Um rumo
A liberdade para o teu vôo
Alforria para meu cantar
.
(Dedicado a Foster e Shearing e a Cazuza, Reinaldo Arias e Ezequiel Neves)
.
sábado, maio 27, 2006
pensamentos em uma tarde de abril
a linguagem é curiosa
a cada palavra o infinito
dos significados ocultos
e das inúmeras contradições
a cada momento um sentido
possibilidades, direções
.
sintagmas de nomes, de fatos
.
para além do tempo vivido
- e este se finda -
o que fica é o paradoxo
do presente
tatuado pela chama
do gozo
sublimado
.
(ainda dedicado a AG)
.
a cada palavra o infinito
dos significados ocultos
e das inúmeras contradições
a cada momento um sentido
possibilidades, direções
.
sintagmas de nomes, de fatos
.
para além do tempo vivido
- e este se finda -
o que fica é o paradoxo
do presente
tatuado pela chama
do gozo
sublimado
.
(ainda dedicado a AG)
.
quarta-feira, maio 24, 2006
inominável
semana de desmarcar
reorganizar
concentrar compromissos
fabricar e deixar que amanheça
um dia
.
frio, neblina
ou seria a fumaça do café
camadas da expectativa
a rotina dos jornais nos jornais
que logo cedo desbotam cena tão planejada
.
mais um dia
mais um ou quantos dias
estarão presos às paredes
o movimento dos véus e das cores
e a bailarina musa
.
tantas dívidas sem cobrança
tanta injustiça caiada
mortes sem dono ou cuidado
tanta trabalho a ser feito
cuidar de celures e baterias...
e o poder público
interrompe a energia
tentando mostrar serviço
ou o poder sem poder
.
em meio ao vai-e-vem da moeda
ironicamente
o órgão que deve clarear
apaga o poeta da luz
.
(... francamente, eletropaulo, vá estudar um meio para impedir que os presidiários recarreguem as baterias dos celulares e/ou vá estudar uma forma para ajudar o MASP a saldar a dívida. não nos prive de alegria, arte e poesia. estamos tão precisados...)
.
reorganizar
concentrar compromissos
fabricar e deixar que amanheça
um dia
.
frio, neblina
ou seria a fumaça do café
camadas da expectativa
a rotina dos jornais nos jornais
que logo cedo desbotam cena tão planejada
.
mais um dia
mais um ou quantos dias
estarão presos às paredes
o movimento dos véus e das cores
e a bailarina musa
.
tantas dívidas sem cobrança
tanta injustiça caiada
mortes sem dono ou cuidado
tanta trabalho a ser feito
cuidar de celures e baterias...
e o poder público
interrompe a energia
tentando mostrar serviço
ou o poder sem poder
.
em meio ao vai-e-vem da moeda
ironicamente
o órgão que deve clarear
apaga o poeta da luz
.
(... francamente, eletropaulo, vá estudar um meio para impedir que os presidiários recarreguem as baterias dos celulares e/ou vá estudar uma forma para ajudar o MASP a saldar a dívida. não nos prive de alegria, arte e poesia. estamos tão precisados...)
.
quinta-feira, maio 18, 2006
sem nome
recolheu as duas
aquela em que a todo entardecer se sentava
e a outra
a que amanhecia
.
passou a tranca na porta
vestiu-se de véus
tomou um gole do absinto
imaginou-se bailarina
.
a noite encontrou-a em rodopios frenéticos
d' Orsay era seu palco
e havia força naquela solidão
presa às paredes
.
(dedicado a ED)
.
aquela em que a todo entardecer se sentava
e a outra
a que amanhecia
.
passou a tranca na porta
vestiu-se de véus
tomou um gole do absinto
imaginou-se bailarina
.
a noite encontrou-a em rodopios frenéticos
d' Orsay era seu palco
e havia força naquela solidão
presa às paredes
.
(dedicado a ED)
.
terça-feira, maio 16, 2006
...
obombeirocorredavelhinhaquecor
redocachorroquecorredasireneque
corredocarteiroquecorredomajorqu
ecorredogariquecorredaestudantequ
ecorredosanguequ
.............................e
...............................s
................................c
.................................o
..................................r
...................................r
....................................e
................................... ........
................................... .....
......................................
..............................................
............................
.................................................sampaescorrehorror
redocachorroquecorredasireneque
corredocarteiroquecorredomajorqu
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.................................................sampaescorrehorror
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...
Poema-comentário de um pernambucarioca apaixonado por São Paulo:
.
sampa em medo
.
vi sampa clara
com suas tortuosas
trilhas banhadas
de manhã no dezembro
.
um surdo mudo
despedaço de serra
libertário-libertino
que marca o eco
do meu pavor
de me chocar com um momento
qualquer do infinito
e deixar de ser
Nel Meirelles
_________________________________
.
Comentário-desabafo deixado por CRYS do blog Jardim de Letras:
.
Como estão se tornando cada vez mais tristes nossas cidades... Aspecto de guerra, portas e janelas gradeadas, pontiagudas grades, muros descomunais! Tudo tão soturno, sibilo de balas mortais. Nas praças, murmúrio...Olhar perdido, feições carregadas de medos...Crianças! Não conhecem o brincar de roda,Uma geração escravas da televisão, do videogame, do computador...Geração tristonha...Ah, como estão cada vez mais ermas e violentas as ruas das nossas cidades...É triste contemplar uma cidade de 12 milhões de habitantes praticamente vazia, de joelhos frente ao crime organizado. É muito triste!
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.
Poema-comentário de CECI do blog Viver Melhor:
.
A Joana
.
A moça caiu de paixão pelo mocinho,
no morro choviam papelotes,
fuzis AR 15 brincavam com os dedos das crianças no plantão,
A moça, tão generosa, não quis ouvir o aviso,
fuzis não mandam flores!
Do outro morro, conhecia os "meninos" do outro lado,
E foi aí que uma voz conhecida,
na madrugada,
chamou a moça,
balas comeram seu corpo
tão jovem morena brasileira...
Pela janela do barraco,
a filha pulou,
escorregando com o irmãozinho,
ribanceira abaixo, safou-se ligeira,
buscando o colo da avó,
bem longe dali,
Para sempre Joana,
aprendiz do medo,
não se viu mais na escola de ontem,
o caderno para sempre,
manchado de sangue.
_____________________________________
.
quinta-feira, maio 11, 2006
a garoa
envolveu-nos
transportou-nos
.
abduzidos
pela dimensão da memória
pudemos então voltar
e refazer o percurso
.
e ele lá estava
onde sempre estivera
.
em doce e paciente espera
.
(dedicado a AG)
.
----------------------------------------------------
.
Continuo desplugada do universo internético.
Agradeço a todos os amigos pelos sinais de afeto que por aqui deixam.
.
Beijos, carinho.
.
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envolveu-nos
transportou-nos
.
abduzidos
pela dimensão da memória
pudemos então voltar
e refazer o percurso
.
e ele lá estava
onde sempre estivera
.
em doce e paciente espera
.
(dedicado a AG)
.
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.
Continuo desplugada do universo internético.
Agradeço a todos os amigos pelos sinais de afeto que por aqui deixam.
.
Beijos, carinho.
.
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quarta-feira, abril 26, 2006
parece até displicência
tanto tempo de ausência
mas ando numa roda louca
e um tanto desplugada
minha voz que já é rouca
revela-se irritada
esgota-se sem paciência
de chamar quem tem a ciência
para me conectar
devolvendo-me o prazer
em postar e comentar
.
um expert em informática
não entende que sinto saudade
- acho que é pura maldade –
da minha vida performática
.
mas não perco a esperança
de tudo se normalizar
aí vai haver festança
volto a usar a gramática
faço a maior lambança
e para celebrar a aliança
com vocês, amigos queridos
conjugo o verbo amar...
laço nunca rompido
.
Beijos, carinho.
.
tanto tempo de ausência
mas ando numa roda louca
e um tanto desplugada
minha voz que já é rouca
revela-se irritada
esgota-se sem paciência
de chamar quem tem a ciência
para me conectar
devolvendo-me o prazer
em postar e comentar
.
um expert em informática
não entende que sinto saudade
- acho que é pura maldade –
da minha vida performática
.
mas não perco a esperança
de tudo se normalizar
aí vai haver festança
volto a usar a gramática
faço a maior lambança
e para celebrar a aliança
com vocês, amigos queridos
conjugo o verbo amar...
laço nunca rompido
.
Beijos, carinho.
.
sábado, março 25, 2006
À SENHORA DAS DORES
...

...
...
...
De muita dor meu cantar.
Amargura que o sofrimento da cria
Provoca no escavado da gente.
Angústia frente à impotência,
Punhal cravado na carne,
Olhos secos de aflição.
Mas tu ouviste meu pranto.
Teu olhar fixou-se em meu peito,
Arrancaste de lá meu tormento.
Quando contemplei tua imagem
Toda vestida de roxo,
Eras o semblante da dor.
A adaga, tu a enterravas
Em teu próprio coração.
Lágrimas na minha face
Teimavam em não escorrer, pois
Tu as choravas por mim.
Qual promessa aspergida,
De ti emergia esperança.
Oh Mãe, Senhora, Maria!
Jamais posso esquecer:
Em meu lugar tu sofreste.
És ícone e presença.
És a verdade do amor.
...

...
...
...
De muita dor meu cantar.
Amargura que o sofrimento da cria
Provoca no escavado da gente.
Angústia frente à impotência,
Punhal cravado na carne,
Olhos secos de aflição.
Mas tu ouviste meu pranto.
Teu olhar fixou-se em meu peito,
Arrancaste de lá meu tormento.
Quando contemplei tua imagem
Toda vestida de roxo,
Eras o semblante da dor.
A adaga, tu a enterravas
Em teu próprio coração.
Lágrimas na minha face
Teimavam em não escorrer, pois
Tu as choravas por mim.
Qual promessa aspergida,
De ti emergia esperança.
Oh Mãe, Senhora, Maria!
Jamais posso esquecer:
Em meu lugar tu sofreste.
És ícone e presença.
És a verdade do amor.
...
quarta-feira, março 15, 2006
variações sobre o invariável
I
areias
quentes e ásperas
me entranham
me lanham
sem sombra
caminho
me arrasto
me arruíno
em meus passos
retorno
.
ásperas
quentes
areias
ou anéis
(destino em círculos)
areias
quentes e ásperas
me entranham
me lanham
sem sombra
caminho
me arrasto
me arruíno
em meus passos
retorno
.
ásperas
quentes
areias
ou anéis
(destino em círculos)
me invadem
me envolvem
se fazem
anelo
.
.
II
por sobre a sombra
das pegadas que deixei
volto
concêntricos rastros
me acolhem
.
são teus os passos
aos quais retorno
...
me envolvem
se fazem
anelo
.
.
II
por sobre a sombra
das pegadas que deixei
volto
concêntricos rastros
me acolhem
.
são teus os passos
aos quais retorno
...
... //...
.
.
Ganhei um presente belíssimo de Dora Vilela.
Para quem quiser ver-ler-sentir: http://pretensoscoloquios.zip.net
A você, dora-poeta-poesia, o meu coração agradecido.
..
domingo, março 12, 2006
Sussurro
Desvenda esse ar
que sopro
aos quatro cantos da terra.
.
Recebe o vento
Recebe o vento
e responde
apenas sim
nunca talvez
ou não.
..
... //...
...
Um presente a mim foi soprado pela voz de Dora Vilela.
Chegou na brisa do afeto e da poesia. Envolveu-me.
Agora sou só contentamento.
E a cada minuto flutuo sobre o: http://pretensoscoloquios.zip.net/
.
quinta-feira, março 09, 2006
Uma tentativa sofisticada...
Não fora a cumplicidade das rosas
Talvez o mundo tivesse acabado naquele instante
E por onde andariam meus passos
Tortos, capengas, talvez
Mas sempre céleres
A me derrubar em teus braços
.
Sorrias de meu desajeito
E eu suspirando nuvens
Pensando envolver-me em poesia
.
Passada manha
Me aninho em teu paço
Passo o que faço
Faço a passo
Apenas posso
versos de pé quebrado
Mas sempre céleres
A me...
.
- cuidado! a poça!
.
tarde demais.
eis-me outra vez
submersa.
na fossa...
.
- destrambelhada!..
...
Talvez o mundo tivesse acabado naquele instante
E por onde andariam meus passos
Tortos, capengas, talvez
Mas sempre céleres
A me derrubar em teus braços
.
Sorrias de meu desajeito
E eu suspirando nuvens
Pensando envolver-me em poesia
.
Passada manha
Me aninho em teu paço
Passo o que faço
Faço a passo
Apenas posso
versos de pé quebrado
Mas sempre céleres
A me...
.
- cuidado! a poça!
.
tarde demais.
eis-me outra vez
submersa.
na fossa...
.
- destrambelhada!..
...
quarta-feira, março 08, 2006
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Quando percebo que só sei falar sobre o dia internacional da mulher falando contra o machismo.
Quando constato que por mais que se denuncie e lute ele permanece indestrutível. Permeando todas as camadas sociais. Norteando nosso imaginário e nossas ações. Caricaturando o ser feminino. Moldando o ser masculino. Sendo o agente desequilibrador de qualquer relação. Fazendo valer a lei do mais forte. Quando vejo que estou me repetindo resolvo trazer de volta partes do texto publicado no ano passado. Ele é um pouco caótico e me lembro, feito no impulso, na revolta. O texto pinça algumas formas de manifestação do machismo. Revoltantes formas. E por ele fui duramente criticada, pois o 8 de março reflete os avanços e as conquistas da luta contra o machismo, merecendo assim ser festejado. Na época reexaminei o que havia escrito e resolvi que neste ano faria uma grande festa por aqui. Tentei. Juro que tentei. Não consegui.
Assim, peço licença para deixar o meu escrito passado...
.
O que dizer para a mulher espancada pelo marido bêbado, desempregado crônico.
O que dizer para ela que, ainda por cima, ouve da vizinha de barraco – se apanhou foi porque mereceu.
O que vou dizer para a mulher-menina que mal alcança a janela do carro, quando ela dança na boquinha da garrafa, em troca de um trocado.
O que dizer, quando é recompensada por algum safado.
O que posso falar para a mulher, mãe a espera do filho na porta da FEBEM, quando recebe de volta um cadáver, sem uma justificativa ao menos.
Que respostas dou à mulher arrastando os próprios filhos por uma cidade que os chuta como se fossem trastes.
Como encarar a mulher que deu tudo o que tinha para salvar a vida do filho jurado de morte tão cedo.
E para aquela que mesmo trabalhando dobrado recebe a metade.
O que responder para a mulher-gerente-de-rh que diz para outra – você é bonita demais, inteligente demais, não tem o perfil.
Como conversar com a mãe, orgulhosa do filho, que com apenas 13 anos já é um pegador de menininhas.
E com as orgulhosas mães das menininhas.
E com a que instiga o filho - se apanhar na rua tem que bater.
O que comemorar com mulheres-damas-de-ferro, as que contrariam o destino, parindo a guerra.
.
Quisera fazer festa. Infelizmente só consigo gritar.
.
... //...
.
Dedicado às mulheres sem voz, dedicado às vozes de mulheres que abriram caminho, dedicado a alguns homens que se juntaram a nós. A todos e todas que sonham e lutam para que a humanidade seja apenas e tão somente... humana.
.
Quando constato que por mais que se denuncie e lute ele permanece indestrutível. Permeando todas as camadas sociais. Norteando nosso imaginário e nossas ações. Caricaturando o ser feminino. Moldando o ser masculino. Sendo o agente desequilibrador de qualquer relação. Fazendo valer a lei do mais forte. Quando vejo que estou me repetindo resolvo trazer de volta partes do texto publicado no ano passado. Ele é um pouco caótico e me lembro, feito no impulso, na revolta. O texto pinça algumas formas de manifestação do machismo. Revoltantes formas. E por ele fui duramente criticada, pois o 8 de março reflete os avanços e as conquistas da luta contra o machismo, merecendo assim ser festejado. Na época reexaminei o que havia escrito e resolvi que neste ano faria uma grande festa por aqui. Tentei. Juro que tentei. Não consegui.
Assim, peço licença para deixar o meu escrito passado...
.
O que dizer para a mulher espancada pelo marido bêbado, desempregado crônico.
O que dizer para ela que, ainda por cima, ouve da vizinha de barraco – se apanhou foi porque mereceu.
O que vou dizer para a mulher-menina que mal alcança a janela do carro, quando ela dança na boquinha da garrafa, em troca de um trocado.
O que dizer, quando é recompensada por algum safado.
O que posso falar para a mulher, mãe a espera do filho na porta da FEBEM, quando recebe de volta um cadáver, sem uma justificativa ao menos.
Que respostas dou à mulher arrastando os próprios filhos por uma cidade que os chuta como se fossem trastes.
Como encarar a mulher que deu tudo o que tinha para salvar a vida do filho jurado de morte tão cedo.
E para aquela que mesmo trabalhando dobrado recebe a metade.
O que responder para a mulher-gerente-de-rh que diz para outra – você é bonita demais, inteligente demais, não tem o perfil.
Como conversar com a mãe, orgulhosa do filho, que com apenas 13 anos já é um pegador de menininhas.
E com as orgulhosas mães das menininhas.
E com a que instiga o filho - se apanhar na rua tem que bater.
O que comemorar com mulheres-damas-de-ferro, as que contrariam o destino, parindo a guerra.
.
Quisera fazer festa. Infelizmente só consigo gritar.
.
... //...
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Dedicado às mulheres sem voz, dedicado às vozes de mulheres que abriram caminho, dedicado a alguns homens que se juntaram a nós. A todos e todas que sonham e lutam para que a humanidade seja apenas e tão somente... humana.
.
domingo, março 05, 2006
sexta-feira, março 03, 2006
NAVEGANTES
Tirou os óculos. Pousou-os sobre a mesa. Passou as mãos pela testa, recompondo-se. Com um longo suspiro, encarou-me.
- Depois de tudo, como me vês?
- Alguns fios brancos na barba por fazer, camisa impecável, as mesmas mãos ambíguas...
- Não é disso que falo...
- ... e o olhar de sempre. Nada mudou. O olhar que me vê está aí, intacto.
- Um pouco decepcionada comigo, talvez...
- ... já deverias saber que navego em outra dimensão.
- Não entendi.
- Recurso para sobrevivência.
- Continuo sem entender.
- Meu afeto por ti não está condicionado ao que fazes ou deixas de fazer. És tão determinado e tão livre! Não há outra forma de te amar a não ser liberta e incondicionalmente. E é nessa dimensão que navega meu barco. Aquela em que o horizonte se estende e assim se perpetua...
- Chegando a lugar nenhum. É o que estás querendo dizer?
- Não. Pois há um porto. Um único porto. Teus olhos... carregando neles os meus. Nada mais importa. A não ser navegar... infinitamente...
Com mãos calmas apanhou de volta os óculos. Ajustou-os ao olhar. A conversa parou. Nossas âncoras se encontravam.
.
Da parede, o canto inoportuno do pássaro lembrou-me as horas.
.
- Depois de tudo, como me vês?
- Alguns fios brancos na barba por fazer, camisa impecável, as mesmas mãos ambíguas...
- Não é disso que falo...
- ... e o olhar de sempre. Nada mudou. O olhar que me vê está aí, intacto.
- Um pouco decepcionada comigo, talvez...
- ... já deverias saber que navego em outra dimensão.
- Não entendi.
- Recurso para sobrevivência.
- Continuo sem entender.
- Meu afeto por ti não está condicionado ao que fazes ou deixas de fazer. És tão determinado e tão livre! Não há outra forma de te amar a não ser liberta e incondicionalmente. E é nessa dimensão que navega meu barco. Aquela em que o horizonte se estende e assim se perpetua...
- Chegando a lugar nenhum. É o que estás querendo dizer?
- Não. Pois há um porto. Um único porto. Teus olhos... carregando neles os meus. Nada mais importa. A não ser navegar... infinitamente...
Com mãos calmas apanhou de volta os óculos. Ajustou-os ao olhar. A conversa parou. Nossas âncoras se encontravam.
.
Da parede, o canto inoportuno do pássaro lembrou-me as horas.
.
quarta-feira, março 01, 2006
Campanha da Fraternidade - 2006

...
...
...
Objetivos
.
Um dos principais objetivos da Campanha da Fraternidade-2006 é apresentar a realidade das pessoas com deficiência e as iniciativas para promover sua dignidade.
.
Um outro objetivo é promover a autonomia dessas pessoas, fortalecendo organizações e movimentos; criando mecanismos para sua participação efetiva, como protagonistas de sua história, na família, na Igreja e na sociedade, mostrando os valores evangélicos que devem orientar o relacionamento com as pessoas com deficiência.
.
A participação de toda a sociedade para alcançar esse objetivo é fundamental!
.
Extraído do site:
www.editorasalesiana.com.br
que contém tudo sobre a CF-2006
.
sábado, fevereiro 25, 2006
imortal
segue o teu destino de filha
volta à casa do Amor
lá dois braços te esperam
te abraçarão com carinho
e será tanto o aconchego
e será tanta a alegria
que sentirás como se nunca tivesses saído
conosco ficará
o que nos deixaste
mais do que a vida
vindo do Pai
ficará em nós
o amor nela vivido
e que em nós derramaste
este não se apaga
não morre
jamais
.
(a ti, minha querida e ao Pai que te acolhe)
.
volta à casa do Amor
lá dois braços te esperam
te abraçarão com carinho
e será tanto o aconchego
e será tanta a alegria
que sentirás como se nunca tivesses saído
conosco ficará
o que nos deixaste
mais do que a vida
vindo do Pai
ficará em nós
o amor nela vivido
e que em nós derramaste
este não se apaga
não morre
jamais
.
(a ti, minha querida e ao Pai que te acolhe)
.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
TRAVATROVA
GORDA A VIDA
GORDA A POESIA
.
TROVA TRINADO TRINANTE TRINADOR
.
COLA ESSE PERFUME AO PEITO
GORDA A POESIA
.
TROVA TRINADO TRINANTE TRINADOR
.
COLA ESSE PERFUME AO PEITO
. E
GIRE DANCE
DANCE GIRE
GIRE LAMBE
DANCE
.
TRINA TROVA
SIBILA ESSE PASSEIO
SUBA
.
DANCE GIRE
GIRE LAMBE
DANCE
.
TRINA TROVA
SIBILA ESSE PASSEIO
SUBA
.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
surpreendente
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
ANATOMIA DE UM SONHO
I
A FOTO
A FOTO
.
Sabíamos para onde nos levava aquele trem. Únicos sons, o da locomotiva e o do choro do menino em febre. Dividi com ele a pequena coberta que agasalhava as minhas pernas. A mãe levantou-se por uns instantes, remexeu seus pertences. Eu a via de costas. Parecia que recortava alguma coisa. Com dificuldade voltou para perto de mim e com um olhar de agradecimento, entregou-me a metade de uma foto. Magnífica. O ângulo inusitado fez com que eu demorasse uns instantes para entendê-la. Múltiplos arcos góticos. De cima para baixo. Surpreendentemente não me vi sob e sim, fazendo parte deles. De dentro para fora. Do escuro para a claridade da praça onde um velho e uma criança, sentados num banco, pareciam esperar. Estáticos.
O ar já se tornava escasso no vagão superlotado. Começava-se a ouvir um ou outro gemido, um ou outro lamento.
Sabíamos para onde estávamos indo. E eu tentando decifrar aquela foto.
A velocidade diminuindo, diminuindo...
As portas foram abertas com violência. Um vento gelado chegou até nós.
Agarrei-me à visão da foto e segui a manada silenciosa. Estava dentro do instantâneo. Era o instantâneo. Por antecipação, transformara-me na abóbada nele retratada.
Lá fora, a estática claridade da praça parecia esperar. Sabíamos.
.
Sabíamos para onde nos levava aquele trem. Únicos sons, o da locomotiva e o do choro do menino em febre. Dividi com ele a pequena coberta que agasalhava as minhas pernas. A mãe levantou-se por uns instantes, remexeu seus pertences. Eu a via de costas. Parecia que recortava alguma coisa. Com dificuldade voltou para perto de mim e com um olhar de agradecimento, entregou-me a metade de uma foto. Magnífica. O ângulo inusitado fez com que eu demorasse uns instantes para entendê-la. Múltiplos arcos góticos. De cima para baixo. Surpreendentemente não me vi sob e sim, fazendo parte deles. De dentro para fora. Do escuro para a claridade da praça onde um velho e uma criança, sentados num banco, pareciam esperar. Estáticos.
O ar já se tornava escasso no vagão superlotado. Começava-se a ouvir um ou outro gemido, um ou outro lamento.
Sabíamos para onde estávamos indo. E eu tentando decifrar aquela foto.
A velocidade diminuindo, diminuindo...
As portas foram abertas com violência. Um vento gelado chegou até nós.
Agarrei-me à visão da foto e segui a manada silenciosa. Estava dentro do instantâneo. Era o instantâneo. Por antecipação, transformara-me na abóbada nele retratada.
Lá fora, a estática claridade da praça parecia esperar. Sabíamos.
.
II
A MULHER
.A MULHER
Ah, como gostaria de ter a posse da minha voz naquele instante. A ti perguntaria o significado de tão inesperada oferta, pois não conhecias nada sobre mim. Flagrada por uma grande angular, a partir de inusitado ponto de vista, tu me entregavas a catedral de minha cidade. Ela, inteira. A foto, um pedaço. O que terias reservado ao cortá-la, o que pretendeste guardar, não saberei. Deixaste comigo os arcos de visão perturbadora e em primeiro plano um sorriso. Entregaste-me o sorriso de teu filho. Teu próprio filho. Embora sem uma troca de palavras, nossos olhares se entendiam. Eu sabia que tu sabias para onde estávamos indo. Naquele vagão, talvez só nos duas soubéssemos. E as contradições ali, todas aparentes. Tínhamos um passado e um futuro nos esperando na claridade da praça. Em nossas mãos apenas um pedaço de teu presente que dividias comigo. E eu, parte da abóbada em grande angular, esperando a hora de descer, pois já se ouvia o apito do trem.
O ritmo da locomotiva foi-se arrefecendo até restar apenas um sopro.
Com a brutalidade que lhe era peculiar, aos gritos, a soldadesca abriu as portas.
Do pesado calor ao vento gelado. Do escuro a um flash de luz. Sabíamos para onde estávamos indo, mas o clarão do dia cegou-me durante uns minutos. Mãos muito brutas nos empurravam. Perdi-me de ti. Levaste as respostas. Deixaste-me parte de teu tesouro e a sensação de perplexidade. Acostumando-me à luz caminhei em direção ao banco onde me esperavam o velho e a criança. Estáticos.
.
III
OS ARCOS
.OS ARCOS
Não é possível. Devo ter enlouquecido, pois me flagrei a conversar com arcos. E que arcos! Góticos. Sobrepostos. Majestosos. Formavam a abóbada de uma catedral. Eu incrustada bem ao centro, fazendo parte dela. E perguntando sem parar, precisava reencontrar a mulher e as respostas. Do alto olhava para baixo. Do lusco-fusco via a claridade lá fora. Aninhada tentava desvendar o mistério que a tudo envolvia. O passado e o futuro ainda me esperavam. Estáticos. De repente, pela primeira vez ouvi a voz dela. A mulher. Suave. Falta um vagão ao trem. Soltei o corpo. Ainda que em câmera lenta, agora sim, sabia para onde e para quê estava indo. Para a luz. Para a praça lá fora. O presente que me fora doado pelo afeto da enigmática mulher, este carreguei comigo. Juntos tínhamos muito trabalho pela frente. Instalei-me entre o velho e a criança. A cena adquiriu movimento.
.
- Corta!
.
(Inspirado n'O Pianista e dedicado à Santa Edith Stein)
.
- Corta!
.
(Inspirado n'O Pianista e dedicado à Santa Edith Stein)
sábado, fevereiro 11, 2006
O POETA E A CONTISTA
.
olhar que vira imagem
que vira palavra
que vira olhar
que vira...
.
dinâmica excitante
olhares visitantes decifram detalhes
recodificam - poetizam
olhares
vêem-se em minhas imagens
revelam-me
deixam em comentários a poesia que se engasgou em mim
olhares que salvam

...
o olhar do poeta Nel Meirelles
.
salvar o como
antes que o porquê
o devore.

...
o olhar da contista Euza Noronha
...
Intoleravelmente devagar ela abriu a caixa. Antes a revolta fora súbita. Mas o cheiro da saudade amainou as cores da raiva. O quarto ganhou tons pastéis. E seus movimentos eram lentos como lento era o movimento da estrela que a guiava.Em perfeita sintonia de dedos e vontades espalhou os papéis pela cama. Nunca eles tinham se tornado uma presença tão viva. Não passavam de sonhos mortos. Era o que ela queria dizer a eles. Mas não havia voz nela. Só mãos que os alisavam e olhos perdidos em outro tempo.Com a mesma lentidão metódica tirou as folhas do fundo da caixa. Silenciosamente mortas. Como se fosse imperioso manter a vida entre as mãos, pegou folhas e flores da jarra. Abraçou-se a elas e deixou que suas lágrimas as fizessem ainda mais viçosas. Depois, com indisfarçável esforço, colocou-as, uma a uma, sobre as letras espalhadas pela cama. Empoeirada e vazia, deixou que o tempo passasse por ela enquanto mergulhava na dor das lembranças.
Até que uma energia impalpável e obstinada irrompeu dentro dela. De imediato abriu a janela e deixou que o vento entrasse. E folhas, flores e cartas misturaram-se pelo chão. Olhou a primeira estrela que brilhava ao longe e chamou pela empregada. Fizera o funeral, era hora do enterro. Desprendera-se finalmente. De letras, de lembranças, de saudade. O olhar que acompanhou a vassoura pelo chão do quarto era de uma vencedora. Renascera como planta forte e viçosa. Audaciosamente viva.

.............
Estando minha palavra sem salvação, salvo aqui a palavra de dois de meus mais antigos comparsas.
...
olhar que vira imagem
que vira palavra
que vira olhar
que vira...
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dinâmica excitante
olhares visitantes decifram detalhes
recodificam - poetizam
olhares
vêem-se em minhas imagens
revelam-me
deixam em comentários a poesia que se engasgou em mim
olhares que salvam

...
o olhar do poeta Nel Meirelles
.
salvar o como
antes que o porquê
o devore.

...
o olhar da contista Euza Noronha
...
Intoleravelmente devagar ela abriu a caixa. Antes a revolta fora súbita. Mas o cheiro da saudade amainou as cores da raiva. O quarto ganhou tons pastéis. E seus movimentos eram lentos como lento era o movimento da estrela que a guiava.Em perfeita sintonia de dedos e vontades espalhou os papéis pela cama. Nunca eles tinham se tornado uma presença tão viva. Não passavam de sonhos mortos. Era o que ela queria dizer a eles. Mas não havia voz nela. Só mãos que os alisavam e olhos perdidos em outro tempo.Com a mesma lentidão metódica tirou as folhas do fundo da caixa. Silenciosamente mortas. Como se fosse imperioso manter a vida entre as mãos, pegou folhas e flores da jarra. Abraçou-se a elas e deixou que suas lágrimas as fizessem ainda mais viçosas. Depois, com indisfarçável esforço, colocou-as, uma a uma, sobre as letras espalhadas pela cama. Empoeirada e vazia, deixou que o tempo passasse por ela enquanto mergulhava na dor das lembranças.
Até que uma energia impalpável e obstinada irrompeu dentro dela. De imediato abriu a janela e deixou que o vento entrasse. E folhas, flores e cartas misturaram-se pelo chão. Olhou a primeira estrela que brilhava ao longe e chamou pela empregada. Fizera o funeral, era hora do enterro. Desprendera-se finalmente. De letras, de lembranças, de saudade. O olhar que acompanhou a vassoura pelo chão do quarto era de uma vencedora. Renascera como planta forte e viçosa. Audaciosamente viva.

.............
Estando minha palavra sem salvação, salvo aqui a palavra de dois de meus mais antigos comparsas.
...
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
Salvar como...
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
dos desertos e das esperas
marcar a espera
em tempo presente
requer instrumento
construído à perfeição
onde caibam os desertos
de passado
pouco mais que imperfeito
.
deixem-se escorrer as areias
deitada, rendida em presságio
ampulheta vazia das horas
inventa o futuro
imperativo da voz
.
faz do verbo
o infinito
...
.
(Dedicado ao Dagô)
.
em tempo presente
requer instrumento
construído à perfeição
onde caibam os desertos
de passado
pouco mais que imperfeito
.
deixem-se escorrer as areias
deitada, rendida em presságio
ampulheta vazia das horas
inventa o futuro
imperativo da voz
.
faz do verbo
o infinito
...
.
(Dedicado ao Dagô)
.
sábado, janeiro 28, 2006
Nos tempos da Maria Fumaça
Santo Inácio
Jacaré
Angico
Monjolinho.Nosso trem
Tem sede e fome
Bebe água
Na parada
Põe mais lenha
Na fornalha
Jacaré
Angico
Monjolinho.Nosso trem
Tem sede e fome
Bebe água
Na parada
Põe mais lenha
Na fornalha
Faz ferver essa caldeira
Por favor
Mestre foguista
Tenho pressa de chegar.Santo Inácio
Jacaré
Angico
Monjolinho.
Passa boi pensando na vida
Por favor
Mestre foguista
Tenho pressa de chegar.Santo Inácio
Jacaré
Angico
Monjolinho.
Passa boi pensando na vida
Passa pé de manga cheirosa
Passa a casa da fazenda
Passa a casa da fazenda
Varandas em floração
Tem rio apostando corrida
O lago refresca o olhar
O lago refresca o olhar
Reflete a luz e a paz
Lá vem o colono tranqüilo
Voltando do cafezal
P’ra co’as galinhas jantar
O sol se pondo na encosta
Dormitando nos dormentes
Os trilhos traindo as trilhas
Da virgem mata intocada
Apita na curva
Lá vem o colono tranqüilo
Voltando do cafezal
P’ra co’as galinhas jantar
O sol se pondo na encosta
Dormitando nos dormentes
Os trilhos traindo as trilhas
Da virgem mata intocada
Apita na curva
Resfolega
Sobe o morro devagar
P’ra mais à frente engatar
.Santo Inácio
Jacaré
Angico
Monjolinho.Já vejo a torre da Igreja
Do Bom Jesus ouço os sinos
Bênçãos da cana verde
Os acenos na porteira
Das crianças penduradas
Indicam que já está perto
Agora seu maquinista
Mostra que é especialista
Puxa a alavanca com força
Olha, está cheia a estação
Anuncia a nossa chegada
Capricha no último apito
Contente escuto em refrão:
O nome
da cidade
amada
Onde o mais simples
ribeirão
é
bonito.
Sobe o morro devagar
P’ra mais à frente engatar
.Santo Inácio
Jacaré
Angico
Monjolinho.Já vejo a torre da Igreja
Do Bom Jesus ouço os sinos
Bênçãos da cana verde
Os acenos na porteira
Das crianças penduradas
Indicam que já está perto
Agora seu maquinista
Mostra que é especialista
Puxa a alavanca com força
Olha, está cheia a estação
Anuncia a nossa chegada
Capricha no último apito
Contente escuto em refrão:
O nome
da cidade
amada
Onde o mais simples
ribeirão
é
bonito.
.(Dedicado à Eliane, caipira daquelas bandas)
.
ADORO TE DEVOTE
Oração composta por São Tomás de Aquino
.
Eu te adoro com afeto, Deus oculto,
Eu te adoro com afeto, Deus oculto,
que te escondes nestas aparências.
A ti sujeita-se o meu coração por inteiro
e desfalece ao te contemplar.
.
A vista, o tato e o gosto não te alcançam,
mas só com o ouvir-te firmemente creio.
Creio em tudo o que disse o Filho de Deus,
nada mais verdadeiro do que esta Palavra da Verdade.
.
Na cruz estava oculta somente a tua divindade,
mas aqui se esconde também a humanidade.
Eu, porém, crendo e confessando ambas,
peço-te o que pediu o ladrão arrependido.
.
Tal como Tomé, também eu não vejo as tuas chagas,
mas confesso, Senhor, que és o meu Deus;
faz-me crer sempre mais em ti,
esperar em ti, amar-te.
.
Ó memorial da morte do Senhor,
pão vivo que dás vida ao homem,
faz que meu pensamento sempre de ti viva,
e que sempre lhe seja doce este saber.
.
Senhor Jesus, terno pelicano,
lava-me a mim, imundo, com teu sangue,
do qual uma só gota já pode
salvar o mundo de todos os pecados.
.
Jesus, a quem agora vejo sob véus,
peço-te que se cumpra o que mais anseio:
que vendo o teu rosto descoberto,
seja eu feliz contemplando a tua glória.
.
... //...
.
Extraído de:
...
... //...
.
Hoje, 28 de janeiro, dia dedicado a São Tómas de Aquino
.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
terça-feira, janeiro 17, 2006
terça-feira, janeiro 10, 2006
quarta-feira, janeiro 04, 2006
segunda-feira, janeiro 02, 2006
sábado, dezembro 31, 2005
quarta-feira, dezembro 28, 2005
UM ANO DE VIDA
Hoje o Oceanos e Desertos completa um ano.
.
Um ano de minha vida em mais de noventa textos, alguns ensaios fotográficos e um número incalculável de comentários, devidamente salvos e guardados. Nem sei o que me deu mais contentamento. Escrever e postar ou receber comentários sempre tão afetuosos. Experiência incrível a de interagir com pessoas das quais não conheço o rosto, mas que aqui mostram a face de suas almas. E posso afirmar: todas belas.
.
Agradeço a todos pela acolhida, pela presença constante principalmente nestes últimos tempos em que me encontro, por problemas pessoais, afastada da net.
.
Hoje, relembrando o final de 2004, quero fazer um agradecimento especial à menina poesia que inventou o nome, escolheu o lay out e colocou no ar este blog, incentivada pela Loba. Dei continuidade, timidamente, mas sempre apoiada pelas duas e também pelo Linaldo. Vocês três são responsáveis por tantas alegrias aqui vividas e compartilhadas. Sabem que moram no meu coração. Então se preparem... porque é para sempre... vão ter que me aguentar... rs.
.
Aos antigos ou novos... aos amigos poetas, seresteiros, sonhadores, companheiros na construção de um mundo novo... parceiros que conhecendo o poder da palavra, usam-na para a celebração do Amor,
.
Beijos, carinho.
.
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Um ano de minha vida em mais de noventa textos, alguns ensaios fotográficos e um número incalculável de comentários, devidamente salvos e guardados. Nem sei o que me deu mais contentamento. Escrever e postar ou receber comentários sempre tão afetuosos. Experiência incrível a de interagir com pessoas das quais não conheço o rosto, mas que aqui mostram a face de suas almas. E posso afirmar: todas belas.
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Agradeço a todos pela acolhida, pela presença constante principalmente nestes últimos tempos em que me encontro, por problemas pessoais, afastada da net.
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Hoje, relembrando o final de 2004, quero fazer um agradecimento especial à menina poesia que inventou o nome, escolheu o lay out e colocou no ar este blog, incentivada pela Loba. Dei continuidade, timidamente, mas sempre apoiada pelas duas e também pelo Linaldo. Vocês três são responsáveis por tantas alegrias aqui vividas e compartilhadas. Sabem que moram no meu coração. Então se preparem... porque é para sempre... vão ter que me aguentar... rs.
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Aos antigos ou novos... aos amigos poetas, seresteiros, sonhadores, companheiros na construção de um mundo novo... parceiros que conhecendo o poder da palavra, usam-na para a celebração do Amor,
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Beijos, carinho.
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segunda-feira, dezembro 26, 2005
ELE CHEGOU!
Tóc-tóc e um... ó de casa!
Correu para abrir a porta.
Um menino envolvido em faixas olhou-a como se pedisse pousada.
Trouxe-o para perto do coração e foi invadida por um sentimento inesperado.
Percebeu-se aceita até mesmo nas imperfeições.
Experimentou um grande amparo no sofrimento.
As faixas da alegria a envolveram.
.
A solidão deixava de ser só.
.
Finalmente... era amada!
.
* * *
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Agradeço o carinho dos amigos
que aqui deixaram votos de
Feliz Natal
e desejo
que todos
sejam inundados
pela presença de Jesus Menino
e experimentem o amor de Deus Pai por nós.
.
sábado, dezembro 17, 2005
minha menina,
se é para soprar sonhos,
quero ser palavra.
se é para me enlevar em nuvem,
quero ser palavra.
se é para me desgovernar,
quero ser palavra.
se é para vagar varais,
quero ser palavra.
mas se é para ser menina,
quero de verdade ser poesia.
assim, do jeitinho que tu és.
.
(feliz aniversário e que Deus te abençoe... sempre)
.
quero ser palavra.
se é para me enlevar em nuvem,
quero ser palavra.
se é para me desgovernar,
quero ser palavra.
se é para vagar varais,
quero ser palavra.
mas se é para ser menina,
quero de verdade ser poesia.
assim, do jeitinho que tu és.
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(feliz aniversário e que Deus te abençoe... sempre)
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segunda-feira, dezembro 12, 2005
PRESTIDIGITAÇÃO
Sou despertada por um alarido festivo. Ainda tonta, esfrego os olhos e chacoalho as sandálias. É embaçado o contorno do ambiente. Mesmo assim o reconheço. Estou num oásis. Sinto a sede. Aproximando-me da fonte, vejo-me refletida em suas águas. Vejo também tudo o que me cerca e um certo desconforto me atinge. Parece que mundo está ao inverso. Ali, o reverso é o real; o ilusório, palpável. O verso é o idioma corrente e o avesso ganha expressão. O tempo, que é sempre implacável, pára. Estanca a razão. Em seu lugar, sentimento. Mesmo ofuscada pude ver solidão apontando aconchego. Da dor vi nascer alegria. Vi o fogo que aquece e não queima. Vi o coxo brincando de roda. Ninguém morrendo de fome. No foco um leve pulsar, uma cadência de vida. Ao abandonar-me no ritmo, vi o que até então julgava impossível. A morte sendo abolida, o pretérito no papel de presente e, você nem vai acreditar, algo ainda mais emblemático: uma filha menina parindo a própria mãe. Espantado? Pois, espere, ainda não lhe falei da emoção. Este é só o começo da minha incrível história de amor. ..
....
(republico por ainda acreditar na existência deste oásis... )
(republico por ainda acreditar na existência deste oásis... )
...
domingo, dezembro 11, 2005
quinta-feira, dezembro 08, 2005
terça-feira, dezembro 06, 2005
PACTO
sei que aí estás
sinto em mim o teu perfume
se és tu a me emprestar as asas
sou eu a te fazer volátil.
.
somos vadias miragens
em vôos de figura e fundo
apenas suave aroma
incenso do que resta em nós
.
contínuo mote de agonia e gozo.
.
(republicação)
.
sinto em mim o teu perfume
se és tu a me emprestar as asas
sou eu a te fazer volátil.
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somos vadias miragens
em vôos de figura e fundo
apenas suave aroma
incenso do que resta em nós
.
contínuo mote de agonia e gozo.
.
(republicação)
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domingo, dezembro 04, 2005
sexta-feira, dezembro 02, 2005
terça-feira, novembro 29, 2005
redundante
hoje quero falar do jogo
não de palavras ou intentos
falo de luzes
em festa
do arrebentar de rojões
.
nada deixado ao acaso
em nosso contentamento
pressentimento tornado foco
cálice iluminado
pelo brilho da aventura
.
alma opaca não resiste
à caminhada feita em fogo
a corações juntos no abraço
ao ardor tornado canto
.
se é persistente a paixão
renova-se certeiro o verbo
em júbilo mantém-se aceso
o entusiasmo
redundante
lume
.
(dedicado a db, o melhor abraço daquela noite)
não de palavras ou intentos
falo de luzes
em festa
do arrebentar de rojões
.
nada deixado ao acaso
em nosso contentamento
pressentimento tornado foco
cálice iluminado
pelo brilho da aventura
.
alma opaca não resiste
à caminhada feita em fogo
a corações juntos no abraço
ao ardor tornado canto
.
se é persistente a paixão
renova-se certeiro o verbo
em júbilo mantém-se aceso
o entusiasmo
redundante
lume
.
(dedicado a db, o melhor abraço daquela noite)
domingo, novembro 27, 2005
sábado, novembro 26, 2005
sexta-feira, novembro 25, 2005
quarta-feira, novembro 23, 2005
domingo, novembro 20, 2005
RESTOS
sexta-feira, novembro 18, 2005
A CAVERNA
Às escuras, acorrentados, avançar através do covil.
Decifrar o que dizem as sombras em movimento.
Na névoa, tocá-las.
Na mudez, perscrutá-las.
Na cegueira, descobrir seus anseios.
.
Longe na memória ainda há lembranças
Do que nos levou tão longe, mas
Não sabemos mais o porquê da cadência repetida,
Das infinitas voltas em círculos.
.
Ouvimos rumores de que poderia ser diferente.
Rumores prontamente desmentidos!
Nem do assassinato daquele pobre lunático se fala mais.
Lembra-se dele?
Aquele que jurava ter visto algo semelhante à luz?
Estivemos por enxergar.
.
Quase chegamos a ver o sol brilhando lá fora.
E quando estávamos prestes a aprender a ter esperança,
Já não havia mais o que esperar.
O assombro nos abocanhara.
.
(um texto saído do baú - agosto de 2004)
Decifrar o que dizem as sombras em movimento.
Na névoa, tocá-las.
Na mudez, perscrutá-las.
Na cegueira, descobrir seus anseios.
.
Longe na memória ainda há lembranças
Do que nos levou tão longe, mas
Não sabemos mais o porquê da cadência repetida,
Das infinitas voltas em círculos.
.
Ouvimos rumores de que poderia ser diferente.
Rumores prontamente desmentidos!
Nem do assassinato daquele pobre lunático se fala mais.
Lembra-se dele?
Aquele que jurava ter visto algo semelhante à luz?
Estivemos por enxergar.
.
Quase chegamos a ver o sol brilhando lá fora.
E quando estávamos prestes a aprender a ter esperança,
Já não havia mais o que esperar.
O assombro nos abocanhara.
.
(um texto saído do baú - agosto de 2004)
terça-feira, novembro 15, 2005
CENA RÁPIDA - O MONÓLOGO
- um dia...
estaremos já mudos no assombro
e seremos por ele engolidos
.
enquanto espero ser digerida
tranqüilamente
consumo a revista semanal
bebo toda a caixa de uísque
e fumo um charuto...
.
- corta!
.
(em exibição no cine-teatro república)
estaremos já mudos no assombro
e seremos por ele engolidos
.
enquanto espero ser digerida
tranqüilamente
consumo a revista semanal
bebo toda a caixa de uísque
e fumo um charuto...
.
- corta!
.
(em exibição no cine-teatro república)
sábado, novembro 12, 2005
FESTA PARA DOIS AMORES
minha filha,
teu olhar verde-azulado
leva-me a horizontes tantos
nem consigo definir
é carinho, é alegria
às vezes pergunta e até zanga
mas sempre luz para vida
matizando o futuro
nesse leve tom
azul-esperançado.
conserva-o...
é de Deus um dom.
é o que nos sustenta.
.
..//..
.
meu veinho,
sempre ocupado
em mil trabalhos
traquinagens de menino grande
da teoria à imagem à poesia
e eu no olhar
me inspiro
acompanho
a loucura da razão
lucidez refletida
nos sonhos produzidos:
vida
.
..//..
.
Dois aniversários e quem ganha sou eu...
meus dois presentes, meus dois amores...
agradeço a Deus pelo dom da vida com vocês.
____________________________
Novo blog no ar: http://maresrevoltos.zip.net/
À minha amiga Ádina desejo sucesso.
teu olhar verde-azulado
leva-me a horizontes tantos
nem consigo definir
é carinho, é alegria
às vezes pergunta e até zanga
mas sempre luz para vida
matizando o futuro
nesse leve tom
azul-esperançado.
conserva-o...
é de Deus um dom.
é o que nos sustenta.
.
..//..
.
meu veinho,
sempre ocupado
em mil trabalhos
traquinagens de menino grande
da teoria à imagem à poesia
e eu no olhar
me inspiro
acompanho
a loucura da razão
lucidez refletida
nos sonhos produzidos:
vida
.
..//..
.
Dois aniversários e quem ganha sou eu...
meus dois presentes, meus dois amores...
agradeço a Deus pelo dom da vida com vocês.
____________________________
Novo blog no ar: http://maresrevoltos.zip.net/
À minha amiga Ádina desejo sucesso.
terça-feira, novembro 08, 2005
lágrima
teus
olhos
vermelhos
falavam: eu morro
nesta solidão tormenta
e tanta gente à nossa volta
que eu em solidão calada
nem pude ao menos
dizer-te: por uma vez tenta
pedir. sairei de mim
prometo
serei o teu
socorro
!
olhos
vermelhos
falavam: eu morro
nesta solidão tormenta
e tanta gente à nossa volta
que eu em solidão calada
nem pude ao menos
dizer-te: por uma vez tenta
pedir. sairei de mim
prometo
serei o teu
socorro
!
sexta-feira, novembro 04, 2005
DOIS PERDIDOS - O DESFECHO
Continuação do post anterior
Ele contando:
Poderia ter inventado uma desculpa, mas não, caí de novo. Nem consegui descobrir o que ela quer comigo. Mulher maluca, desorientada. Canta, dança, dirige, tudo ao mesmo tempo. Tão destrambelhada que nem percebeu a minha investida. Mulher doida, ainda se perdeu várias vezes fazendo com que eu me perdesse também. A reunião começando e eu ainda à espera do elevador. Quando a porta se abriu me vi lá no fundo. O espelho mostrava meu desalinho, imperdoável para um executivo. Passei a mão pelos cabelos desgrenhados, sem sucesso. Em São Paulo, ninguém mais anda com os vidros abertos. Só ela. Aquela avoada.
Ao entrar na sala fui fuzilado pelo presidente do conselho.
Não era a primeira vez. E sempre por causa da oferta irresistível. Resolvi naquele instante. Carona com ela, nunca mais.
Sentei-me, abri meu laptop e dirigi a atenção para o relatório que estava sendo apresentado. Aos poucos aquela lengalenga foi me entorpecendo. Parecendo estar em transe, digitei o nome dela. Que susto! DOIS PERDIDOS! Um relato do que acabáramos de viver. Como ela consegue ser tão rápida? Ao meu riso alto, um psiu generalizado na sala. Ela falando de ternura e aquele “Você é meu GPS” piscando frente aos meus olhos...
- Você está na contra-mão de nossos trabalhos, disse o presidente.
Só então me dei conta. Voltei a ler o texto atentamente. Fechei o laptop com um golpe rápido. Levantei-me e saí quase correndo sem olhar para trás. Enquanto descia já fui arrancando a gravata ao mesmo tempo em que pegava o celular.
Digitei o número.
- Atende!
Caixa postal. Tentei de novo.
- Oi, fala!
- Acabei de ler o seu blog. Volta aqui para me pegar.
- O quê?
- Abaixa o volume do rádio, disse, ou melhor, gritei.
- Pronto. Estou ouvindo. Pode falar.
- Volta para me pegar.
- Agora? Estou enroscada numa rua chamada Tito... onde é isso? Para que lado...
- Mas o que você está fazendo na Lapa? Não deveria ir para a zona leste? Essa sua mania de só pensar em escrever!
- Me ajuda... como saio dessa?
E ela ainda ri.
- Fácil, é só você... deixa pra lá... vai começar tudo de novo... não saia daí, estou pegando um... Táxi!
Assim que embarquei... começaria tudo outra vez...
Só tive o trabalho de mudar o tempo do verbo.
A gravata? Joguei-a pela janela.
Eu assistindo:
Nunca mais cruzei com eles até que segunda-feira, passando pela Vila Madalena, encontrei-os. Estão casados, têm dois filhos - Eduardo & Mônica.
Abriram juntos uma editora especializada em poesia. Ele, com toda experiência em finanças, administração, marketing e ela, com a sensibilidade para revelar poetas, fizeram da empresa um sucesso. Todos os dias enchem a mala do carro com livros e saem vendendo de porta em porta.
Ela instalou um GPS no carro. E ele, sempre que se senta no banco do carona, apressa-se em desligar o aparelho e, claro, em sintonizar o rádio. Nesse dia não foi diferente. Logo que nos despedimos... amor meu grande amor, não chegue na hora marcada...
E lá se foram cantando... os pneus.
De longe ainda pude vê-lo gesticulando, braço para fora da janela, apontando para a direita, enquanto o carro virava à esquerda.
.
(Dedicado a Gonzaguinha, Legião Urbana e Ângela Ro Ro, a quem agradeço pela cessão da trilha sonora)
Ele contando:
Poderia ter inventado uma desculpa, mas não, caí de novo. Nem consegui descobrir o que ela quer comigo. Mulher maluca, desorientada. Canta, dança, dirige, tudo ao mesmo tempo. Tão destrambelhada que nem percebeu a minha investida. Mulher doida, ainda se perdeu várias vezes fazendo com que eu me perdesse também. A reunião começando e eu ainda à espera do elevador. Quando a porta se abriu me vi lá no fundo. O espelho mostrava meu desalinho, imperdoável para um executivo. Passei a mão pelos cabelos desgrenhados, sem sucesso. Em São Paulo, ninguém mais anda com os vidros abertos. Só ela. Aquela avoada.
Ao entrar na sala fui fuzilado pelo presidente do conselho.
Não era a primeira vez. E sempre por causa da oferta irresistível. Resolvi naquele instante. Carona com ela, nunca mais.
Sentei-me, abri meu laptop e dirigi a atenção para o relatório que estava sendo apresentado. Aos poucos aquela lengalenga foi me entorpecendo. Parecendo estar em transe, digitei o nome dela. Que susto! DOIS PERDIDOS! Um relato do que acabáramos de viver. Como ela consegue ser tão rápida? Ao meu riso alto, um psiu generalizado na sala. Ela falando de ternura e aquele “Você é meu GPS” piscando frente aos meus olhos...
- Você está na contra-mão de nossos trabalhos, disse o presidente.
Só então me dei conta. Voltei a ler o texto atentamente. Fechei o laptop com um golpe rápido. Levantei-me e saí quase correndo sem olhar para trás. Enquanto descia já fui arrancando a gravata ao mesmo tempo em que pegava o celular.
Digitei o número.
- Atende!
Caixa postal. Tentei de novo.
- Oi, fala!
- Acabei de ler o seu blog. Volta aqui para me pegar.
- O quê?
- Abaixa o volume do rádio, disse, ou melhor, gritei.
- Pronto. Estou ouvindo. Pode falar.
- Volta para me pegar.
- Agora? Estou enroscada numa rua chamada Tito... onde é isso? Para que lado...
- Mas o que você está fazendo na Lapa? Não deveria ir para a zona leste? Essa sua mania de só pensar em escrever!
- Me ajuda... como saio dessa?
E ela ainda ri.
- Fácil, é só você... deixa pra lá... vai começar tudo de novo... não saia daí, estou pegando um... Táxi!
Assim que embarquei... começaria tudo outra vez...
Só tive o trabalho de mudar o tempo do verbo.
A gravata? Joguei-a pela janela.
Eu assistindo:
Nunca mais cruzei com eles até que segunda-feira, passando pela Vila Madalena, encontrei-os. Estão casados, têm dois filhos - Eduardo & Mônica.
Abriram juntos uma editora especializada em poesia. Ele, com toda experiência em finanças, administração, marketing e ela, com a sensibilidade para revelar poetas, fizeram da empresa um sucesso. Todos os dias enchem a mala do carro com livros e saem vendendo de porta em porta.
Ela instalou um GPS no carro. E ele, sempre que se senta no banco do carona, apressa-se em desligar o aparelho e, claro, em sintonizar o rádio. Nesse dia não foi diferente. Logo que nos despedimos... amor meu grande amor, não chegue na hora marcada...
E lá se foram cantando... os pneus.
De longe ainda pude vê-lo gesticulando, braço para fora da janela, apontando para a direita, enquanto o carro virava à esquerda.
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(Dedicado a Gonzaguinha, Legião Urbana e Ângela Ro Ro, a quem agradeço pela cessão da trilha sonora)
_._._._
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Estou só contentamento.
Mais uma vez fui telescopiada por Nel Meirelles.
Nel, agradeço muito.
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terça-feira, novembro 01, 2005
DOIS PERDIDOS
Nem sei se ele se lembra. Estávamos os dois a rodar pela cidade quando me perguntou:
- Para você o que sou?
Sem saber qual caminho tomar parei e o olhei de forma interrogativa.
- Para a esquerda ou direita?
- Por ali, não vê que estamos na contra-mão?
De repente um enorme caminhão... e eu... sanduíche de gente... apertei-me contra a guia enquanto ele me lançava um olhar divertido. Rezava para que não aparecesse um guarda. Seria obrigada a confessar que minha habilitação vencera há tempos. O celular disparado e eu enganchada entre uma moto e latas de lixo, sem poder atender.
Engatei a primeira e ele a me alertar:
- Está vermelho!
O celular parou. Aproveitei para acender um cigarro e esperei... ai que coisa boa, à meia luz, a sós, à toa...
No verde, segui.
- O que foi que você perguntou mesmo?
- Preste atenção. Deve entrar à direita na próxima esquina. Logo depois da curva, fique à esquerda.
No rádio, Rita Lee ainda fazia o fundo e eu cantarolando junto... você e eu somos um caso sério... antes de retomar a conversa.
- Fala, o que foi...
- Cuidado, está na faixa do ônibus... cada um na sua... uma quadra e... perdidos na cidade nua... passou, você passou!
Mais outra volta no quarteirão, naquele trânsito...
- Pode parar ali, perto da árvore. Chegamos.
Destravou o cinto de segurança e antes que eu puxasse o freio de mão já abria a porta
- Espera. O que me perguntou quando ainda estávamos na São João?
- Para você o que sou?
Tinha tanta ternura nos olhos que me perdi neles, não sabendo o que responder. Fechou a porta sem deixar de me olhar pela janela... empapuçados de amor... lançando um sorriso, endireitou o corpo e se apressou... ao som de um bolero... estava atrasado, claro.
Recuperando o fôlego gritei.
- Você é meu GPS!
Tarde demais. Buzinas encobriram a resposta. Estava parada na entrada de um prédio interrompendo a passagem. Ele, depois de contornar um buraco da calçada, olhou para trás, ainda sorrindo e acenou. Estava longe do alcance de minha voz. Não mais escutaria. Repeti, agora apenas sussurrando:
- Você é meu GPS, minha bússola.
Engatei a primeira. O pé escapou fazendo o motor engasgar. Na segunda tentativa consegui. Fui... mesmo não sabendo muito bem para que lado... você e eu somos uuuum caso sério... dose dupla...
- Para você o que sou?
Sem saber qual caminho tomar parei e o olhei de forma interrogativa.
- Para a esquerda ou direita?
- Por ali, não vê que estamos na contra-mão?
De repente um enorme caminhão... e eu... sanduíche de gente... apertei-me contra a guia enquanto ele me lançava um olhar divertido. Rezava para que não aparecesse um guarda. Seria obrigada a confessar que minha habilitação vencera há tempos. O celular disparado e eu enganchada entre uma moto e latas de lixo, sem poder atender.
Engatei a primeira e ele a me alertar:
- Está vermelho!
O celular parou. Aproveitei para acender um cigarro e esperei... ai que coisa boa, à meia luz, a sós, à toa...
No verde, segui.
- O que foi que você perguntou mesmo?
- Preste atenção. Deve entrar à direita na próxima esquina. Logo depois da curva, fique à esquerda.
No rádio, Rita Lee ainda fazia o fundo e eu cantarolando junto... você e eu somos um caso sério... antes de retomar a conversa.
- Fala, o que foi...
- Cuidado, está na faixa do ônibus... cada um na sua... uma quadra e... perdidos na cidade nua... passou, você passou!
Mais outra volta no quarteirão, naquele trânsito...
- Pode parar ali, perto da árvore. Chegamos.
Destravou o cinto de segurança e antes que eu puxasse o freio de mão já abria a porta
- Espera. O que me perguntou quando ainda estávamos na São João?
- Para você o que sou?
Tinha tanta ternura nos olhos que me perdi neles, não sabendo o que responder. Fechou a porta sem deixar de me olhar pela janela... empapuçados de amor... lançando um sorriso, endireitou o corpo e se apressou... ao som de um bolero... estava atrasado, claro.
Recuperando o fôlego gritei.
- Você é meu GPS!
Tarde demais. Buzinas encobriram a resposta. Estava parada na entrada de um prédio interrompendo a passagem. Ele, depois de contornar um buraco da calçada, olhou para trás, ainda sorrindo e acenou. Estava longe do alcance de minha voz. Não mais escutaria. Repeti, agora apenas sussurrando:
- Você é meu GPS, minha bússola.
Engatei a primeira. O pé escapou fazendo o motor engasgar. Na segunda tentativa consegui. Fui... mesmo não sabendo muito bem para que lado... você e eu somos uuuum caso sério... dose dupla...
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Inspirado em uma conversa com minha amiga Ádina, a quem dedico o post.
Os itálicos foram emprestados por Rita Lee e Roberto de Carvalho em Caso Sério.
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domingo, outubro 23, 2005
REVOLTA
Só um santo dia
para a ablução
da dor em mente,
mas mentes
em mantras
intermináveis.
Seduzida por teu canto
eis-me aresta
a espera em rastro
arrasto.
Só um santo dia,
limpas do adultério,
as mãos...
.
mas não,
mentes!
.
para a ablução
da dor em mente,
mas mentes
em mantras
intermináveis.
Seduzida por teu canto
eis-me aresta
a espera em rastro
arrasto.
Só um santo dia,
limpas do adultério,
as mãos...
.
mas não,
mentes!
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(Inspirado em Jeremias e dedicado ao Chico de quem roubei só um santo dia)
(Inspirado em Jeremias e dedicado ao Chico de quem roubei só um santo dia)
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Escrevi este texto em resposta a um desafio do blog Loba, corpus et anima.
Lá foi publicado, tendo como título Yirmeyâhû, no dia 06/10/05.
Aqui rebatizado e levemente reformado...
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sexta-feira, outubro 21, 2005
m a n t r a
v.e.n.t.a..l.e.v.e
l.e.v.a..a.l.e.n.t.o
l.e.v.a..l.e.v.e
v.e.n.t.a..l.e.v.a
l.e.v.e..a.l.e.n.t.o
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v.e.n.t.a.l.e.n.t.o
v.e.m
!
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(Dedicado à Dione, sábia amiga, a quem pergunto: a récita deste mantra me levará aos campos da poesia?)
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