sexta-feira, outubro 14, 2005

CORRESPONDÊNCIA DE AFETO

Querida,
.
Há quanto tempo não vens
minha amiga e conselheira
Sem teus ventos e sopros
sinto a alma migrar
para longe d’Ele e de mim
Me abandonas assim
Só
Permites que eu solte
o espírito desbaratado
corisque de um mote a outro
como cavalo desenfreado
Às apalpadelas
vivo o desatino
destino do desamparo
ou porões, minha morada
Peço que novamente me indiques
-há tempos dela me perdi-
os caminhos da paciência
Vem, sinto tua falta
traze teus sugestivos versos
tuas dores e contentamentos
tuas agonias e o enlevo
tua elegância
És sempre bem-vinda
mesmo quando tumultuas
-e quantas vezes o fizeste-
minha já tumultuada mente,
meu desgovernado coração
Vem e o segredo virá
-pois bem sinto mora em ti–
fazendo-se inspiração revelada
E, se não for muito o pedir,
ao vires traze
os ares e o canto das aves de Ávila
para que eu pressinta
–e apenas pressentir já é alívio–
o despertar da beleza
Sabendo que és puro desvelo
eu atenta discípula me quedo
com carinho espero
por teus sinais, até mais...
.
...//...

.
Teus ais pude daqui ouvir,
sobrinha querida,
e preciso dizer-te
que Ele de ti não se descuida.
E lembra-te...
.
O amor, quando já crescido,
Não pode ocioso ficar,
Nem o forte sem lutar,
Por amor de seu Querido.
Deus, de seu amor vencido,
Sempre o fará vencedor.
Que será ver-te, Senhor?
.
...//...

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Quinze de outubro é o dia dedicado a Santa Teresa de Ávila
de quem tomei uma estrofe do poema “A Santo André”
para compor esta troca de cartas.
Os trechos em itálico são de Santa Teresa.
_________________
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É TAMBÉM NOSSO DIA
ABRAÇOS A TODOS OS PROFESSORES
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quarta-feira, outubro 12, 2005

NO DIA DAS CRIANÇAS

HISTÓRIAS DO VELHO LENHADOR.-- Está na hora. Preciso dormir. É seu turno.
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Desde há muito era acordado pela voz estridente da Coruja. Antes que o dia clareasse ela já estava batendo à janela.
Levantava-se, preparava o café, enquanto seu fiel escudeiro ia ver como estava o tempo lá fora.
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-- Hoje chove ou hoje faz sol... sempre acertava. Êta Cãozinho sensível! Perdigueiro dos bons.
. .
No embornal, apenas uma côdea de pão e a garrafa térmica. Não levava machado nem serra, pois era um lenhador diferente da maioria. Apenas recolhia os galhos que as árvores deixavam pelo chão.
À porta, os pássaros já o esperavam e lá ia o grupo proseando alegremente em direção à floresta enquanto o sol nascia.
Sempre o primeiro a falar, lá vem o novidadeiro do Bem-te-vi.
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-- Sabe que durante a noite nasceu o nenê da Girafa?
-- E foi tudo bem?
-- Sim ele até já está brincando pela clareira.
-- Eu é que não dormi nada, disse o Pica-pau.
Uma gargalhada geral.
-- E por que não dormiu?
-- O Esquilo, aquele que mora no andar de baixo, roncou a noite inteira. Um ronco tão forte que fazia tremer toda a árvore. Até parecia terremoto.
Riram muito, pois diariamente ouviam a mesma reclamação.
.A cabana era a última da aldeia antes da entrada da floresta. Rapidamente lá estavam e o velho lenhador ia dando os bons dias aos amigos que encontrava. Fazia a inspeção costumeira, no que era acompanhado pelo Grupo de Defesa da Floresta. Visitava doentes, resolvia alguns probleminhas. Hoje iria visitar o bebê girafa.
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Sim, havia naquelas bandas uma ONG criada para resolver os problemas internos da comunidade, suprir necessidades, principalmente para impedir a entrada das malditas motos-serra. O Carvalho, morador mais antigo, na verdade criador daquela floresta, era o presidente. Profundo conhecedor das demandas da mata, um sábio, sempre ouvido por todos. O vice era o Leão, encarregado de negociar com os madeireiros que porventura ousassem por ali aparecer. Vinham derrubar árvores para depois vendê-las. Punham em risco a sobrevivência do lugar. Mas quando o Leão aparecia, corriam. E quem gostaria de ficar cara a cara com ele numa negociação? O primeiro secretário era o Elefante que tinha como tarefa principal organizar o transporte da água do rio em caso de incêndio. O fogo, muitas vezes criminoso, apavorava a comunidade. O velho lenhador, além de presidente de honra, era presidente do conselho e intérprete. Era o único humano com quem os animais e as plantas conversavam. Único humano a quem confiaram o segredo de seus idiomas. Tesoureiro não tinha lá. Não havia precisão, uma vez que tudo se resolvia através de trocas. Principalmente trocas de afetos.
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As árvores mais altas, os insetos e os pássaros faziam a vigia. Conseguiam detectar qualquer comboio que se aproximasse ou qualquer início de incêndio. E sempre que o perigo fosse iminente todos eram convocados pelas Maritacas, e passavam a formar um enorme mutirão de salvamento quer apagando o fogo quer impedindo que gente malvada, interessada em destruir a floresta, pudesse ali entrar.
Viviam felizes, em harmonia. Cuidavam-se uns dos outros e do lar que era de todos. E davam exemplo para o mundo.
Tanto que o velho lenhador já está arrumando as malas. Pela primeira vez sairá de sua aldeia, de sua floresta. Vai viajar para a Europa, imaginem, acabou de ganhar o Prêmio Nobel da Paz.
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As Histórias do Velho Lenhador sempre as dedico aos netos e hoje não poderia ser diferente, meus” bunitinhos”... rs.
Expandindo a dedicatória, ela vai também para a Vida, para as crianças, para os bem jovens e para os nem tão jovens assim, todos os que me aceitam como avó... rs.
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No dia das crianças... beijos, carinho, Galera!
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domingo, outubro 09, 2005

REVOLUÇÃO

Quero outra vida p’ra mim
Uma que não dependa de planos
Que não me consuma as horas
Em lidas sem direção ou efeitos
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Quero livre a mente
Pensamento leviano
A alma solta no espaço
Forjados na imprudência
Passos a me afastarem
De tudo o que seja supérfluo
Me devolvendo o olhar
De auto-libertação
E que ainda de quebra me ensinem
A arte de restaurar corações
.
Quero o frescor, quero a alegria
Que nascem num largo sorriso
Das crianças em folguedos
Dos namorados nas praças
Em bitoquinhas e juras
Dos aposentados e seus tênis
Sarados na ronda do bairro
Quero as cores e a melodia
Que vicejam nas feiras-livres
Minha gente se lambuzando
Nos sabores das frutas maduras
.
Quero pisar as ruelas
De mãos dadas com as calçadas
Deixar que elas me ponham
Em marcha, em bailado de corpo
Rodando na ventania
Transformada inspiração
Hino venta leve
Leva alento
Às horas de sombra ou de sol
Ou de chuva ou de fome ou de sede
.
Esta é a vida que quero p’ra mim.
Aquela que vem com o amor.
Só ele é capaz de trazer
Em cada pegada a surpresa:
Serventia p’ro meu canto,
Destino ao meu caminhar.
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(dedico à maria-menina, agradecendo pelo toque)

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quinta-feira, outubro 06, 2005

pessoal, subordinado e oblíquo

se sonho
se assumo
se assanho
se deito
se durmo
se sonho
se sofro
.
se ando só
se desconjuro
se te conjugo
se me irrito
se salto atrás
se solto a dor
se faço verso
.
se minha rima não se realiza
se essa birra você não esquece
.
é uma pena

é desperdício
é um suplício
é uma chatice

é teimosia
é solidão
.

(para um birrento)
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terça-feira, outubro 04, 2005

ZAPPING

enquanto isso, tião e coleguinhas, nas rodas, nos bares, jogam conversa fora, riem, mostrando como é leve e faceira a vida no campo...
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duas crianças engolem ovo cru e aprendem que para vencer na vida basta querer, ralar, engolir... e quem não tem nem o ovo?
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enquanto isso o menino me pede uns trocados para a cola...
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hora de dizer sim ou não?
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enquanto isso rodam-se as cadeiras dos Ps... aceita-se a melhor oferta... o que quer dizer o P?
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investiga-se o investigado que para fugir à investigação põe-se a investigar...
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o novo Bolívar me diz que a melhor defesa é o ataque...
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minha cidade descobre uma nova arquitetura para combater a pobreza... constrói rampas anti-mendigo...
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um senador embotocado, cabelo tingido, ajeita o beicinho e me manda um beijinho...
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enquanto isso, ouço: imagina se todo mundo resolve fazer greve de fome nesse país?
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e me obriga a imaginar também: imagina se todos os que já fazem greve de fome resolvem comer?
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enquanto isso, se a sardinha falta, cada um que puxe a água para a sua latinha...
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enquanto isso, um novo francisco, defendendo o velho francisco, no dia do pobre francisco...
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(Dedicado ao Bispo Luiz Flávio, meu frei querido... em oração, esperando que tu sejas ao menos respeitado pelo sr. presidente)
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sábado, outubro 01, 2005

Teresinha, Teresinha, Teresinha!

É quase orar com o olhar
O coração se acalma
Traz consolo para alma
Ver Teresinha no altar
.
É quase céu de doçura
Esta forma de oração
Na foto, a devoção
Teresinha é só ternura
.
É quase todo o carinho
E Jesus sabe que é hora
Faz com que eu encontre agora
Teresinha em meu caminho
.
Santa Teresinha, rogai por nós!
.
*************
1º de outubro - dia de Santa Teresinha do Menino Jesus
Deixo aqui um de seus pensamentos:
"Para mim a oração é um simples impulso do coração, um simples olhar que se lança para o céu".
..
*******
Quem quiser ver fotos da santa das rosas, clique aqui:
http://images.google.com.br/images?q=santa+teresinha&hl=pt-BR&btnG=Pesquisar+imagens.
E quem quiser saber mais sobre ela:
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terça-feira, setembro 27, 2005

...

duplipensar a vida e as questões
do humano em caminhada
(ou seria trombada)
viajar qual anjo desatinado
na descida aos infernos
ali encontrando o norte
no cheiro podre da morte
fazer valer o valente olhar da poesia
ou do quase nada, quase tudo
em tudo, um quase tudo
.
sugar da palavra a seiva
moendo-a na ação
derramar o suco nos braços
de quem reflete a vida e as questões...
.
contínuo mote do desespero
moto contínuo da esperança...
o que nos resta fazer
nos tempos
de anormal normalidade
(ou normal anormalidade)
.
a minha escolha está feita
por hoje me despeço, peço licença...
tenho um grande amor me esperando.
___________________________
.
(pontos de partida: comentários ao poema Geografando de Dora Vilela em 26/09 - http://pretensoscoloquios.zip.net - e à crônica Quase tudo, quase nada de Loba em 27/o9 - http://www.lobabh.zip.net )
.

domingo, setembro 25, 2005

mais uma tentativa

com a canhota descrevo
imagens que surgem borradas
dissipando-se ao leve toque
do teclado emperrado
são versos de mão quebrada
rodam na corda bamba
derrapam em entrelinhas
e se esborracham no concreto
.
oh, manquitolante poesia!
.
por mais que eu queira fazer
valer o olhar do amor
rico por natureza e destino
são pobres as rimas que tenho
ao papel oferecer
assemelham-se a desatinos
e apesar de todo empenho
carecem de qualquer valor
.
(resposta à Anawin)

quarta-feira, setembro 21, 2005

DUPLIPENSAR

até tentei falar de improviso
do inverno que se despede
da primavera batendo à porta
e das promessas que ela traz
a natureza se abrindo em flor
o cinzento ganhando cor
bobaginhas se repetindo
.
porém...
.
em tempos de malvadezas
cinismo, desfaçatez,
desconstrução da utopia
o improviso envergonhado
se auto-consome, se cala.
.
(é hora de regar as aspidistras)
.
Dedicado a George Orwell
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sexta-feira, setembro 16, 2005

COM VOCÊ...

aprendi a esperar a esperança
aprendi a sentir o sol na chuva,
a ouvir o som da cor,
a vibrar o nada e a solidão.
.
Aprendi a sentir no corpo
o ardor da espera,
o arrepio da vida,
a amolecida paz.
.
Com você
aprendi a me alegrar na ausência,
a me alegrar no encontro,
a me alegrar,
me alegrar,
alegrar.
.
Na verdade
com você
aprendi a viver
tudo isso que é amar.
.

segunda-feira, setembro 12, 2005

NO DESERTO

Pobres de nós
nem uma rede temos
para descansar nossas mentes,
para largar nossos corpos
no tom lascivo do abraço.
.
Pobres de nós,
nem um pátio florido
para abafar nossos passos
traçados pelas tormentas,
trançados na rebeldia.
.
(aqui acolá uma fruta caldo escorrente sede)
.
Persistem-nos as areias
ásperas, cúmplices, mutantes.
Nelas podemos deitar
nossas febres em urgência,
nossas almas retalhadas
que o vento embala e adormece.
.
Pobres de nós, ricos amantes!
.
(dedicado aos que do amor são andarilhos)

terça-feira, setembro 06, 2005

AGRADECENDO

Da tormenta inesperada
Recupera-se Cristina
Apesar do caminho longo
De tão penoso caminhar
Algo nos acompanha
Em confiança seguimos
Temos o amparo do Pai.
.
Para os que por aqui passam deixo um pensamento de Santa Teresinha do Menino Jesus junto a meus agradecimentos por formarem tão poderosa corrente de orações.
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"Faz-nos tanto bem, quando sofremos, ter corações amigos, cujo eco responde à nossa dor".
.
Beijos, carinho.
.
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quinta-feira, setembro 01, 2005

O REENCONTRO

Estarás desperta
Atenta às minhas palavras
Poderei lembrar casos
O capítulo da novela
Riremos juntas
Das estripulias passadas
E das que ainda virão
Haverá por fim um momento
Em que teu olhar viajante
Fará porto em meus olhos
Sentindo o sentido do tempo
Tua voz estará à espera
A minha em gesto atento
.
No fôlego após um suspiro
Deverei falar o que queres
De verdade e em verdade ouvir
Que estiveste apenas dormindo
Tal criança em abandono
No aconchego do Pai
.
(Dedicado à Tita)

sexta-feira, agosto 26, 2005

TERNAMENTE

De coração de mãe,
Do sentimento do pai,
Tanto se fala e se canta
Mas e da tia
O que se diz afinal
De quem não teve no ventre
O ser que seria metade
Da genealogia e futuro
.
Espécie de espectadoras
Nós duas, sobrinha querida
Parece que temos
Uma dimensão comum
És um olhar em demanda
Sou demanda no olhar
Te sentes quase uma filha
De minha parte, quase mãe
E sem nada sermos
A não ser partes de um quase
Quase nada
Quase tudo
Nos ofertamos na dor
Mútua resistência e vigília
Da existência pressentida
Apenas ternuras em laço
Simples ato de afeto
Este sim, bem mais do que um quase...
Pois sendo simples, completo.
.
(À minha doce Tita)
.

quarta-feira, agosto 24, 2005

À NOSSA SENHORA DA CABEÇA

Eis-me aqui, prostrado aos vossos pés, ó mãe do céu e Senhora Nossa! Tocai o meu coração a fim de que deteste sempre o pecado e ame a vida austera e cristã que exiges dos vossos devotos. Tende piedade das minhas misérias espirituais! E, ó Mãe terníssima, não vos esqueçais também das misérias que afligem o meu corpo e enchem de amargura a minha vida terrena. Dai-me saúde e forças para vencer todas as dificuldades que me opõe o mundo. Não permitais que a minha pobre cabeça seja atormentada por males que me pertubem a tranquilidade da vida. Pelos merecimentos de vosso divino Filho, Jesus Cristo, e pelo amor a que ele consagrais, alcançai-me a graça que agora vos peço (pede-se a graça que se deseja obter). Aí tendes, ó Mãe poderosa, a minha humilde súplica. Se quiserdes, ela será atendida. Nossa Senhora da Cabeça, rogai por nós.
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Mãezinha do céu, eu confio em vós! Amém.
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(Pela recuperação de Ana Cristina, minha amada sobrinha)
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Sobre a devoção à Nossa Senhora da Cabeça:
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http://www.milicia.org.br/index.asp?pag=central/titulos/cabeca.htm&m=0
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segunda-feira, agosto 22, 2005

O TERÇO DA MISERICÓRDIA

A ser rezado no terço comum, substituindo as orações do terço como indicado:
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No início:
Pai Nosso, Ave-Maria, Credo
.
Nas contas do Pai Nosso:
Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e Sangue, Alma e Divindade, de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo em expiação de nossos pecados e dos do mundo inteiro.
.
Nas contas da Ave-Maria:
Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro.
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Ao fim do terço, rezar três vezes:
Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro.
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(Pela recuperação de Ana Cristina)
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Extraído de:
http://rosariopermanente.leiame.net/devocoes/misericordia.php
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sábado, agosto 20, 2005

ORAÇÃO A SÃO MIGUEL

São Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate, cobri-nos com vosso escudo, contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o, Deus, instantemente o pedimos e vós, Príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e a todos os espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.
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Sacratíssimo Coração de Jesus.
Tende piedade de nós!
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(Por Ana Cristina)

quinta-feira, agosto 18, 2005

PARA UM AMIGO QUE SOFRE

Tenho me perguntado, constantemente, a que distância devo ficar de um amigo que sofre.
Existirá um padrão, um instrumento que me dê esta medida?
Talvez nem tão perto a ponto de invadir seu íntimo ou mesmo perturbar o seu descanso.
Talvez nem tão longe onde não possa escutar seu pranto e seu pedido de socorro.
Ao alcance de um olhar, quem sabe, seja a distância correta.
Lá, onde eu possa oferecer meu próprio olhar e assim abraçar o olhar do amigo.
Lá, naquele ponto em que os corações se encontram e se expandem.
Lá, onde eu possa ficar simplesmente e olhar... e deixar-me olhar... que é a forma pela qual duas almas amigas se entendem e se completam... mesmo que seja por um breve e fugidio momento.

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domingo, agosto 14, 2005

NO DIA DOS PAIS

Nós duas no topo da escada olhando a noite e os faróis. Desenhavam círculos concêntricos. Teu assobio perguntando. O de mamãe respondendo. Descias o baldio traçando uma linha reta. Ora paravas escondendo-te nas folhagens. Ora seguias o sinal que te era enviado.
O trecho pequeno levava, no meu pouco entender, uma eternidade para ser vencido. Não sabia ao certo a razão de tanta agonia. Só me agoniava junto e me esforçava por aprender o assobio em código. Os carros negros desistiam da marcha. Abraçava-te aliviada.
Muito tempo depois de tua partida pude entender o sentido destas cenas. Elas se repetiriam com outros atores, outros cenários, embora tom e tensão fossem os mesmos.
Nos dias de hoje revisito as lembranças em busca de inspiração para continuar. Por onde andariam o teu sopro radiofônico, tua remington incansável, teus varais de fotografias?
Se as respostas, não as encontro, sigo com tua imagem e por mais paradoxal que pareça, dada a saudade que ainda tenho de ti, chego até a me alegrar... por não precisares ver o que fizeram de teus sonhos.
__________________________
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... a todos os pais, o aconchego.
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quarta-feira, agosto 10, 2005

O CUIDADO

cuida do amor que mora em ti
e ele se transformará em gesto amoroso
.
cuida do gesto que voa de ti
a ti ele retornará em cânticos
.
em dueto vela e segue
no caminho a canção se revelará
.
AMOR
.
(Dedicado a Clara e Francisco)
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quarta-feira, agosto 03, 2005

PARA TUDO TEM UMA HORA

Um dia, sem mais nem menos,
Começou a pensar na morte.
Como seria o velório...
Nem se atrevia a deixá-lo
Entregue à própria sorte.
Se sempre tudo planejara
Tomou lápis e papel
E lá vai recomendação:
.
As cãs da testa disfarçadas
Com flores entremeadas
Descendo pelos cabelos soltos.
Base dando uma cor...
Com as rugas,. nem se importava
Não gostaria é de se ver abatida
Na solene data da própria saída.
Nos olhos, um fino traço
Dando leveza ao olhar,
Um batom discreto, rímel...
A roupa deixaria a gosto
Pedindo só que usassem
Uma que lhe dissimulasse
O contorno arredondado.
Nas mãos, que não esquecessem do rosário.
Lembrava-se toda pomposa
De um de botões de rosas
Vindo direto de Assis.
.
Aos amigos, nas despedidas,
Um coquetel bem servido,
Daqueles com até prato quente
E para passar o tempo,
Que contratassem um trio:
Bateria, piano e baixo.
Em anexo, o repertório seguia.
.
Para a encomendação,
O coro da Igreja São Bento
Em gregorianos mistérios.
Quem sabe um solo com Fortuna...
Imaginou as coroas, mensagens,
Carruagens empurrando-a para o céu
E, no auge da pretensão,
Antevia já o reencontro
Com falecidos queridos.
.
A missa, em alguma capela,
Filtrando por entre vitrais
Floridas azaléias em eternas florações.
As luzes todas acesas,
Velas novas no altar.
.
E as flores, de preferência
O amor-perfeito
Em arranjos esparramados.
Seriam tantos vasinhos
Que cada convidado
De lembrança um carregasse.
.
Último ato de insubordinação:
Liturgia fúnebre, nem pensar.
Mesmo sem ao Sr. Bispo avisar,
Que trocassem as leituras.
A primeira, encontrariam em Provérbios.
Aquela em que a sabedoria se apresenta
Junto de Deus, a artífice
Brincando sobre o globo de sua terra.
.
Deixava ao gosto dos amigos
A escolha do cantor
Do salmo, deste sim, fazia questão.
Que fosse o do Bom Pastor,
Atravessando-a pelo vale escuro,
Segurando-a pela mão.
.
Para a segunda leitura,
A carta de São Paulo aos Coríntios.
Perfeita ao definir o amor
A que tudo desculpa, tudo crê,
Tudo espera e suporta.
.
Pelo incenso perfumado,
O Evangelho a ser cantado,
Do Apocalipse um trecho
Em que Nossa Senhora a esperasse
Revestida de sol e realeza
Resplandecente, maternal beleza.
O padre, sacerdote zeloso,
Saberia em sua homilia
Ser loquaz e amoroso
Nos cuidados aos presentes.
Haveria ainda um momento
Para se encaixar
Uma ressalva aos lá do alto.
Até que seria sensato
Acrescentar os novatos
E ressoar com encanto,
Entremeada a prantos,
A ladainha de todos os santos.
.
Mas o que seria gravado
Na lápide a defini-la?...
Releu o que havia escrito
Em busca de inspiração.
.
E... só então...
.
Fez um balanço da vida.
Da vida longa, vivida
Na vida que não viveu.
Pondo tudo na balança
Viu o prato dos desacertos
Pendendo mais que os do bem.
Resolveu não ser a hora.
Pensou, refletiu, ponderou...
.
Só iria se entregar
Quando amigos e descendência
Pudessem em sã consciência
Em epitáfio lavrar:
.
“Aqui jaz nossa querença,
Mulher justa e aguerrida,
Foi tempero nesta vida
E morreu de tanto amar”.
.
Citações: Livro dos Provérbios, 8; Salmo 23; I Carta de São Paulo aos Coríntios, 13; Apocalipse, 12.
.

sexta-feira, julho 29, 2005

VOLTANDO

Depois do pastel na feira
Depois do frio e do sol,
Das doces claras em oração,
Depois do enfoque no amor,
Da cumplicidade com as rosas...
.
Depois da calçada, do entorse,
Do lapso e de um braço amigo,
Depois da dor,
Da vida, café, cafuné,
Os ligamentos rompidos,
Cadeira de rodas, bengala.
.
Depois de silêncios impostos
E de dilúvios astutos,
Mais rosas, mais braços amigos.
De novo conversa amorosa
Com Teresinha no altar.
.
Os ligamentos se entendem,
Esqueço a dor no arquivo.
Os afetos... estes celebro.
São toda a razão pra voltar.
.
(Dedicado às minhas doces amigas da Toca de Assis)

.

domingo, julho 10, 2005

DOMINGO

apenas tu
chuva
lava
alma
rega
verso
leve
leva

apenas tu...
a calma
. .
verosimilhanças
ora as dos afogados oceanos
ora as dos mergulhos dunas
às vezes
uma ilha para beber fôlego
ou um oásis para matar a sede
matrizes em verbo
versos semelhanças
.
(dedicados, o primeiro a Alex e o segundo a Daniel)
.
http://palavreando.zip.net/
http://aladiah.blogspot.com/
.

quarta-feira, julho 06, 2005

UMA LENDA

a tanto sobreviveu
à seca, à fome,
aos maus tratos...
.
menino valente sobreviveu
à estrada poeirenta,
à boléia do caminhão,
ao desamparo.
.
jovem intrépido resistiu
à perseguições, à intolerância,
às injustiças, em luta.
.
adulteceu íntegro
cortando a própria carne.
.
reconheceu-se homem
repartindo seus passos firmes.
.
ao se aproximar da velhice
sem mais nem menos resolveu
que não mais viveria
sem os brinquedos
que a infância lhe negara.
comprou um avião.
.
não mais adotaria farrapos.
mandou talhar nobres vestes.
.
não mais partilharia passos com poeira.
instalou tapetes ao seu redor.
.
deliciou-se em letícia.
.
... e nunca se viu
na história daquele reino
figura mais trôpega.
.
(dedicado aos contadores de histórias)
.

sexta-feira, julho 01, 2005

MATURIDADE

A você que entra nos enta
Devo contar como é a vida
Agora chegando aos 60
Posso dizer que é doída
Nos 30 me achava madura
Tinha a verdade, sabida
.
(mas)
.
Aos 40 cheguei bem sofrida
Parti para recomeçar
Hoje caminho segura
Sei que ando em liberdade
.
(pois)
.
Maturidade à venda
Em loja, empacotada
Não vou mesmo encontrar
.
(Dedicado a Carl Rogers)
.

quinta-feira, junho 23, 2005

...

LUTOLUTOLUTOLUTOLUTO
LUTOLUTOLUTOLUTOLUTO
LUTOLUTOLUTOLUTOLUTO
LUTOLUTOLUTOLUTOLUTO
......................................................luta


Junte-se a nós no repúdio à corrupção, mensalão e afins!
Visite o Loba, Corpus et Anima e demonstre a sua indignação.
.

segunda-feira, junho 20, 2005

ENTALHE

um sol tímido e apressado
esculpiu um halo ao teu redor
esperança gravada em arco
.
um molde vazado e inquieto:
.
era a tua dor
na minha dor
.
(Dedicado à Florbela Espanca)
.

domingo, junho 19, 2005

QUESTÃO MÍNIMA

De quantos anos
precisa uma nação
para do jeitinho
chegar ao mensalão?
.
Dedicado
aos perplexos,
aos inconformados
e aos entristecidos.
.

quinta-feira, junho 16, 2005

O APAIXONADO

Uma voz no silêncio do sonhos...
.
Nem imaginas a minha expectativa
Quando pressinto teus passos
A descer as escadas em meio ao jardim
Carregada de ouro e pedras preciosas
Me envolverás em teus sândalos
Me vestirás com tuas sedas
Farás cantar harpas e flautas para mim
E no olhar trarás os enigmas e dores
Que rondam o teu espírito
Tuas dúvidas serão minhas
Teus sofrimentos já os terei
Minha boca se acenderá por ti

Teus lábios soprarão doçuras
Meus braços serão teus
Os teus se abrirão para mim...
E é este o momento há muito desejado
Aquele que eu gostaria de eternizar
Para que, quando retomares teu caminho,
Tenhas em teu coração
Gravada no centro de ti
A minha marca de amor
Pois é tudo o que importa
De nada mais preciso
Para em ti ser feliz

.
... ao amanhecer me deixei acordar.
.
(Inspirado em I Reis, 10 e dedicado à Vocação arteDeus)
.

terça-feira, junho 14, 2005

CENAS DO DESAMPARO

Foram quarenta, sessenta minutos, não sei.
O tempo parou naquele declive coberto por grama.
Pequenos arranjos de flores salpicavam o verde aqui e acolá.
O silêncio só não era completo porque cortado pelo som ritmado das pás.
A batida do surdo alternada pelo repique da caixa, ao cair da terra na vala funda, indica que tanto ficou para trás. Os sonhos e esperanças, se é que existiram... As responsabilidades, obrigações, tarefas, deixadas inconclusas... Toda luta, agora sem uma causa ou motivo...
À cadência das pás, junta-se agora o choro de uma criança.
Começa com um leve soluço, pianíssimo, buscando fundo o sentimento desconhecido que a faz atônita.
Os olhos fixos no movimento das pás, acompanham seu trajeto e pousam naquele vão aberto, talvez à espera de um último adeus. Que não vem.
Um sabiá canta ao longe e recebe de volta a resposta de sua companheira.
Uma brisa leve traz aos sentidos o cheiro do humus, pois as pás continuam seu trabalho.
De pianíssimo, o choro passa a forte. Parece ter encontrado a própria dor. Desespero, desamparo, raiva contida.
Um fino raio de sol rompe a espessa camada de nuvens e alcança a cena, iluminando-a.
Outros pássaros, agora não mais sabiás, fazem contraponto aos soluços magoados da criança.
Fortíssimo é o lamento, como também são o desespero, o desamparo, a raiva, agora assumida.
Estou só? É o que pergunta aquele choro descontrolado.
As mesmas mãos que tocaram as pás agora suavemente depositam as flores sobre os últimos acordes da sinfonia, abafando-os.
O choro vai se acalmando.
As nuvens engolem o delicado raio de sol, ouve-se ao longe mais um sabiá e, depois, o silêncio.
O olhar da criança ainda espera o último adeus. Que não vem.
Seus olhos estão secos. Agora entendem e murmuram: estou só!
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(Dedicado ao Bruno)
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sábado, junho 11, 2005

ENTRE ASPAS

Hoje quero compartilhar com os amigos um poema de Emily Dickinson.
.
Na Minha Flor eu me Escondo
.
Na minha flor eu me escondo
para que, se me levas em teu peito,
sem querer também me vestes
e só os anjos sabem o resto!
.
Na minha flor eu me escondo
para que, teu vaso abandonando,
sem querer sintas por mim
quase uma solidão.
.
Extraído de "Os melhores poemas de AMOR da sabedoria religiosa de todos os tempos".
Seleção, apresentação e tradução de José Jorge de Carvalho.
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quarta-feira, junho 08, 2005

QUEM AMA...

decifra gesto
digita poesia
.

... gesta
.
____________________

É tempo dos enamorados.
É tempo de descobrir o amor.
_____________________
Dedicado a todos os que estão participando da SEMANA,
mandando recadinhos, poemas, declarações de AMOR...
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terça-feira, junho 07, 2005

SELF SERVICE

para os que a timidez cala
ofereço uma banquinha
com my self em promoção
é só escolher a quadrinha
juntar flores e enviá-la
ajeitada num cartão
.
(se)
o desejo é clandestino
procuro uma nação
que dê asilo ou destino
ao meu sofrido coração
.
(se)
vive meu olhar no exílio
escondido e degredado
peço entrega em domicílio
de um fogoso namorado
.
(se)
não precisa ter visto
nem passaporte assinado
é porque eu não resisto
a um peregrino apaixonado.
.
(se)
o que os olhos vêem
o coração consente
em delivery apresente
um suave eu te amo
e já me deixará contente
.
(se)
você já fez de tudo
flores, cartões, serenatas
para chamar a atenção
de um insensível coração
e não há nada que ajude
(de minha parte fiz o que pude)
tenta a derradeira jogada
lança-lhe uma rápida olhada
tasca-lhe um bom beijo fast food
.
Estamos em plena SEMANA DO AMOR.
Navegando até o lobabh.zip.net, você poderá se revelar.
Mas que seja rápido, pois o amor tem pressa.
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sábado, junho 04, 2005

TRINDADE

Eu sou
És tu
.
Somos
Espaço indizível
Intervalo em sopro
Concha tramada
Nós

.
(Dedicado ao meu vèinho e ao intransitivo que ousamos conjugar)
_______________________
_______________________

.
O amor é frágil tesouro.
Precisa de cuidados, de agrados,
De doces palavras e gestos.
Quem ama tem o dever de contar.
Quem é amado precisa saber.
Vale verso, vale prosa.
Só não vale vacilar.
.
Assim sendo, declaramos, Loba e eu, aberta a semana dos enamorados.
Destinada a todos os que já encontraram o amor e também aos que ainda o procuram.
.
No lobabh.zip.net, as instruções para mais um fazer coletivo.
Não deixe para revelar amanhã o amor que hoje clama.
Participe.
________________________
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quarta-feira, junho 01, 2005

ODE A UM ARMÁRIO

Surpresa assim de repente
Nem sei de onde ele veio
Chegou-me como um presente
Há de se julgar pelo estilo
Que tenha vindo do passado
Forte, imponente, garboso
Exibindo graça ao brilhar
À espera, no meio da sala
Parece que está a chamar
.
Com respeito me aproximo
Qual criança curiosa
Suavemente o toco,
Acarinho, deslizo a mão
Respiro o perfume do cedro
Sinto a pujança do tempo
Renovo ancestrais compromissos
.
Conto e reconto as gavetas
O que posso ali guardar
Vai logo se definindo
Na mais baixa devo encerrar
A ausência de meu pai
A infância tão ferida
A adolescência perdida
Tranco-a p’ra não mais olhar
.
Logo acima arquivo os fracassos
Sempre os devo rever
Pois servem de referência
Indicam os meus novos passos
Evitam que eu ande a esmo
Levando avante o sofrer
.
Agora a gaveta dos sonhos
Embaralhados, alegres
Fazem grande alvoroço
Vivem inesgotável festejo
Da arrumação desisto
Fecho-a com dificuldade
Permito que fiquem para fora
Pontas do que mais almejo
Pontes p’ra felicidade
.
São quatro as pequeninas
Que vêm logo a seguir
Em cada uma encaixar
Decepções, injustiças,
Desafetos e o receio
De a alguém mais ferir
.
A última tão alta está
E sendo um pouco emperrada
Impede olhares de esguelha
Lá vou acomodar meus segredos
As fantasias mais loucas
As paixões sangüíneas, vermelhas
As dúvidas que não são poucas
Os amores inconfessos
Os pecados, remorsos e medos
As máscaras dissimuladas
.
Quase pronto o meu armário
Mas falta-lhe um quê de beleza
Algo de majestade e firmeza
Que o transforme em relicário
Encontro um belo xaxim de hera
Em ramagem esparramada
Na cobertura a ajeito
Avalio a doce quimera
Ainda assim pobre de luz
Pouso a mão em meu peito
Tateio a medalha encontrada
Descubro o que me faz desolada
Não há um afeto inteiro
Falta à estante, calor
Trago a imagem de Jesus
Concluo a lida aliviada
Ele com coração à mostra
Instala-se feito um posseiro
Em terno arremate de amor
.
(junho - mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus)
.

segunda-feira, maio 30, 2005

ACHADO NO BAÚ

SERPENTEIA SERPENTINA
ATINA COM QUE EU QUERO CONTAR
.
SOLTO O PASSO
VIRA A GINGA
VEM NO EMBALO DO BLOCO A DANÇAR
NÃO SE ABALE
SÓ SE EMBOLE
FINCA O CORPO
.
TEM O CORSO
TEM CORDÃO
TEM O ENTRUDO
ENTRA EM TEMPO NO BLOCO A CANTAR
.
E DESSE CANTO
EXPIA O ENCONTRO
QUE FAZ O ENCANTO
DE SE TROMBAR
.
(De 1981 - dedicado a Caetano Veloso)

sexta-feira, maio 27, 2005

EM PACTO COM A SOMBRA

sei que aí estás
sinto em mim o teu perfume
se és tu a me emprestar as asas
sou eu a te fazer volátil
.
somos vadias miragens
em vôos de figura e fundo
apenas suave aroma
incenso do que resta em nós
contínuo mote de agonia e gozo

.
(Inspirado por um verso da Loba: “Não consigo entender como posso gostar tanto de mim até mesmo quando sou volátil como perfume de sombra” e dedicado a C.G. Jung)
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quarta-feira, maio 25, 2005

"DESÍGNIO"

Tudo era só contentamento, cuidado e espera
A alma brilhando tal alumínio depois de areado
Já não pregava os olhos há várias luas e sóis

.
Ora no degelo se espraiando
Água viva escaldante beijo
Ora em fogueira se alastrando
Fogo vivo refrescante abraço
Crescente luz a pratear anseios
Tempo a pino sombreando dor
.
Já não pregava os olhos...
“E eram os sonhos a mantê-la acordada”.

.
(Dedicado a Darcy Ribeiro)

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segunda-feira, maio 23, 2005

ELOS PERDIDOS

Uma conversa pelo telefone aparentemente sem rumo, ingênua, daquelas que só acontecem entre amigos que se admiram e se respeitam. Partilha de contentamentos e sonhos, parecendo coisa de adolescentes não fôssemos as duas, Loba e eu, mulheres maduras. Uma idéia, a de sair pela vida procurando elos perdidos. Para a concretização dela, um passo. O evento, como qualquer evento, precisaria de tema, lema, logotipo, folder, panfletagem. Uma verdadeira campanha de marketing. E lá fomos nós.
No início lembrava-me alegremente das pessoas queridas, afastadas por contingências da própria vida e de como seria bom reencontrá-las. Porém, enquanto me envolvia com as providências para o evento, meu coração começou a pregar-me uma peça, assoprando-me um nome ao ouvido. Fingi-me surda por um tempo, mas vocês sabem o quanto o coração é persistente e o quanto é impossível o controle sobre ele. Rendi-me a pensar sobre uma relação rompida no desentendimento. Afundei-me na auto-análise. Imagens doridas, razões, motivos, desmotivos. Meus próprios erros, as expectativas que joguei sobre ela, as inevitáveis decepções, as ofensas mútuas e chorei. Surpreendentemente, pela primeira vez em muitos anos, vieram também lembranças tão boas. Nossos passeios pelos shoppings, nossas trocas de segredos, projetos que realizamos juntas e das leituras que ela fazia de minhas poesias. Suas interpretações dotavam meus escritos de uma beleza que eles não têm. Estava nela a poesia. E quem tem poesia no olhar tem o amor nos poros e na alma. Sabe amar e nos ensina a conjugar este verbo. Sei que neste momento uma reaproximação é impossível. Mesmo assim sinto-me aliviada. Algo se reconciliou dentro de mim. Recuperei um elo perdido em meio ao sofrimento e à dor. Hoje posso tranqüilamente responder ao meu coração. Sim, eu a amo e volto a chamá-la de irmã. Querida irmã. De quem só quero guardar, daqui para frente, os ensinamentos, o carinho, os momentos de partilha e completude.
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O tema ELOS PERDIDOS está rendendo. Catarse, polêmica, reflexão.

Acredito que em cada elo deixado pelo caminho está um pedaço de mim. Um tantinho de meu afeto. E que só sou inteira... se está inteiro o meu afeto.
Então vamos em busca de elos, elas, eles... nós.

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As instruções para o fazer coletivo estão no lobabh.zip.net e as participações podem ser enviadas também para:
adeliatheresacampos@hotmail.com
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sexta-feira, maio 20, 2005

A MAIS PURA VERDADE

Eram duas sementes. Com uma engasgou-se o menino. Outra na terra se quedou. Pisada, enquanto chegava a água e os inevitáveis tapas nas costas que faziam arder o menino. Quando o sufoco passou cada um voltou a seus afazeres e todos na cidade se esqueceram do fato. Até que o menino começou a mudar. Crescia a olhos vistos. Sua pele, antes puro veludo, foi se tornando rugosa e esbranquiçada. Entremeadas aos cachos de seus cabelos brotavam aqui e ali folhas imparipenadas. O povo daquela cidade, mesmo acostumado a tantos assombros, olhava de esguelha o menino. E ele crescendo. Em casa já não cabia. O coreto da praça o recebeu e sua mãe toda manhã deixava ali água fresca, o pão de cada dia e voltava a tratar do roçado. E ele crescendo. Assim já era demais. Os cachos todos sumiram. Sua cabeça era só folhas. E eis que, na primavera, surgem flores. Alaranjadas. Já não mais cabendo no coreto, plantou-se na praça o menino. O perfume que se esparramava para além dos limites do povoado atraía curiosos. Chegavam em caravanas, montados no lombo de jegues ou mesmo a pé. Na hora do ângelus mulheres rezavam o terço enquanto os homens faziam apostas no balcão do boteco. A quantas chegaria o menino se já media 15m. Tanto alarido chamou a atenção das autoridades. Montou-se uma comissão com os mais ilustres sábios do país. Chegaram em carros vistosos, trazendo aparelhos estranhos e passaram a estudar o fenômeno. Interrogaram os pais, vizinhos, retiraram lascas do menino-árvore. Examinaram, discutiram e foram embora. Sumiram sem dar explicação. Soube-se depois, que entrevistados por jornais e TV foram lacônicos ao responder. Nada a declarar. O menino-árvore é uma fraude para atrair incautos. Aos poucos o povoado foi voltando à normalidade. Acostumava-se. O menino, a essas alturas da história, com 25m oferecia uma fresca sombra para a hora em que o sol se estatela. Num dia, destes em que até o mormaço é silêncio e amolece, algumas crianças, aproveitando-se da sonolenta desatenção dos adultos, faziam arte com as flores caídas no chão. Bem picadinhas, misturadas à água, tinham ali um suquinho, um pouco ácido, embora gostoso, brincadeira comum entre crianças. E lá mandam o tal suco para dentro. E assim foi descoberta a propriedade emética do menino-árvore. Mas efeito oculto estranho. Primeiro as crianças se queixavam de dor de barriga e nó no estômago. Choravam. As mães acudiam aflitas, apoiando-lhes os espasmos. Pois não é que nada de nojento acontecia? O que punham para fora eram palavras transformadas em poesia. A surpresa logo se transformou em alegria. As crianças, agora livres de maiores indisposições, saíram a poetar pela vila e pelos campos. Eram só versos de amor sendo despejados por todos os cantos. O agreste agradecido de tanta belezura foi se transformando em verde. As colheitas se multiplicando. Até as brigas em ponta de faca, comuns depois das bebedeiras, cessaram. Tudo era só contentamento, cuidados com o menino-árvore e espera. A cada ano, uma nova primavera.
Da outra semente, nada se sabe. Alguns rumores davam conta de que ela, atravessando a Terra, tivesse saído por um furinho do outro lado e se perdido na estratosfera.
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Tenho aqui mais uma história. Mas essa nem vou me dar ao trabalho de contar, pois é pura balela. É sobre um astronauta excêntrico que afirma ter identificado um buraco branco muito luminoso, durante sua última viagem interplanetária. Grande descoberta científica, pois se sabe da existência de buracos negros. De brancos nunca se ouviu falar. Ele chegou até a escrever um artigo relatando como verdade que durante a primavera, do buraco branco, saíam revoadas de anjos carregados de sementes, em direção à Terra. Ainda bem que a NASA, depois de alguns testes psicológicos, internou o astronauta num hospício. De onde nunca mais saiu.
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(Inspirado pelo Zumbi e dedicado ao Linaldo)
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Aviso Importante
Na vida vamos permitindo que afetos nos escapem. Não importam os motivos do afastamento. Importa a falta que tais elos nos fazem. Se você quer se reaproximar de um amigo ou amiga, não perca a oportunidade. O blog da Loba está promovendo a semana do ELO PERDIDO. Vá até lá e participe.
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quarta-feira, maio 18, 2005

FEBRICITANTE

Se sou só ou se só sou, não importa.
Se é cara a cara nova de plástico em substituição ao rústico, nem sei.
Se o cara arranca da gente a grana depois de encostar o berro, quem liga?
Se o jornal mostra em letras garrafais o tanto que a garrafa mata, fazer o quê?
Se o mal vence o bem em quase todas as batalhas, continuo rezando.
Se a carne é fraca, o coração pedinte, o telefone toca...
Ai! Quando é que vão inventar a cura pra gripe?
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(Dedicado ao Dr. Marcos, para ver se ele me tira de estado tão lastimável)

sexta-feira, maio 13, 2005

COM LOUVOR

Volto aos bancos escolares
Em busca do conhecimento.
De mestra a aprendiz
Ponho à prova meus leitores.
Vago em ciência com eles
E juntos em folguedos vamos
Para o mundo do afeto.
Lugar em que nada se julga,
Em que todos são aprovados.
Bastam os ouvidos sensíveis,
A poesia no olhar,
A voz valente a empurrar,
Um coração feito sonho,
Sonho realizado abraço,
Abraço, resultado:
Vida.

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(Dedicado à Maria, ventre do Amor)
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terça-feira, maio 10, 2005

HOJE É DIA DE PROVA

questão de geometria
sendo longos os teus braços
tais linhas retas sem rumo
traça-me nas tuas paralelas
cruza-me entre as tuas diagonais
encontra a intersecção
.
a figura resultante
dará ao espaço vazio
nova configuração?
.
questão de acústica
estando inquieto o coração
deve-se procurar por sinais
na propagação do toque
de um telefone antes mudo?
.
se a resposta for sim
demonstra como reverberar
o alô em tom maior
.
questão de astronomia
considerando a órbita dos planetas
seus satélites, luas vagantes
pelo espaço sideral
.
serão os corpos celestes
formas perdidas do amor?
.
questão interdisciplinar
assinala a alternativa correta:
se eu
de outono me fizer primavera
serás para mim tradução
de um sol, sinfonia, um degas
em amor mais que perfeito?
......................................( ) sim
.
Recomendações:
Lê com muito carinho, responde a tudo com capricho, não ultrapasse o tempo, nem abandone questão em branco.
Deixa embaixo da carteira o desespero desligado. Lembra-te que em caso de nota baixa, resta ainda uma chance. Construiremos a ocasião para recuperação.
Boa sorte!
.
(Dedicado a um professor querido)
.

sábado, maio 07, 2005

ENTRE ASPAS

Neste domingo das mães, deixo um poema de Leonardo Boff, extraído de seu livro:
O Senhor é meu Pastor.
_________
.
Deus, eu te encontrei novamente!
Até as lágrimas, em puro estremecimento!
Tu és o fascinante presente
Embora sempre tremendo.
Sim, Tu és meu nesse momento.
.
Viver só para Ti, de Ti e Contigo!
Como antigamente, dia a dia.
Contigo sonhava e me perdia.
Saía de mim para ser um Contigo!
.
Enfim cheguei ao lar materno,
Repleto de toda sorte!
O que der e vier é eterno
É amor de Mãe, na vida e na morte.
_________
.
Dedicado a você, mãe... beijos, carinho.
.

segunda-feira, maio 02, 2005

RECORRENTE

de nada conheço tudo
de quase tudo, um pouco

sei da história do mundo,
da vida dos povos,
da sociologia,
psicologia,
e da ecologia,

sei de tanta coisa distante
sem significado imediato pra mim.

mas...
não sei de você
o que quer, o que pensa
se pensa que quer
o que quero em pensar.

Dedico aos sábios pensadores citados no post anterior, pedindo a eles que me respondam...

e agora?
.

sábado, abril 30, 2005

EX - LIBRIS

É uma corrente ou melhor, uma enquete que está circulando pelos blogs. Sem entrar muito na intimidade dos blogueiros, acaba por revelar as fontes de inspiração dos mesmos.
Tenho acompanhado os depoimentos de companheiros e me deliciado ao encontrar afinidades, reencontrar livros que andavam perdidos na minha memória, além de receber ótimas indicações de leitura.
Agradeço à Loba, ao Nel Meirelles e à Borboleta Azul, por terem me colocado nesta interessante roda de leitura.
À entrevista, então.

Não podendo sair do Fahrenheid 451, que livro quererias ser?
Logo que fui convidada a participar desta enquete lembrei-me de três livros. Descartei um deles e não consegui escolher só um entre os dois restantes. Ora quero ser Manuscritos de Felipa de Adélia Prado, ora o Cântico dos cânticos.

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por algum personagem de ficção?
Muitas vezes. As princesas dos contos de fadas, identifiquei-me com todas. Depois passei a ser a Emília de Monteiro Lobato. O que mais gostava era de me imaginar, tal qual Emília, uma “dadeira de idéias”. Acho que até hoje gosto. Mais tarde, já adulta, tinha por hábito ler antes de dormir. Impressionante é que nos sonhos dava continuidade à história que estava lendo. Na verdade, nunca acertei o desenrolar do enredo, pois meu mundo onírico, a partir do livro, criava outras histórias. Hoje dei de me identificar ou me apaixonar por autores e não mais por personagens.

Qual foi o último livro que compraste?
Sou compradora compulsiva. Então relaciono os do meu último pacote:
O Ser Fragmentado – da cisão à integração de Anselm Grün.
São José, a personificação do Pai de Leonardo Boff.
Poesia liberdade de Murilo Mendes.
Aqui tem coisa
de Patativa do Assaré.
Altares Paulistas - Resgate de um Barroco, publicação do Museu de Arte Sacra de SP.

Qual o último livro que leste?
O Ser Fragmentado – da cisão à integração
de Anselm Grün, convite ao mergulho em nossas próprias profundezas.

Que livros estás a ler?
Leio tantos ao mesmo tempo que até fico um pouco envergonhada ao responder, mas sinceridade...
São José, a personificação do Pai - a reflexão de Leonardo Boff , baseada em vasta bibliografia sobre São José, atualiza o significado deste santo para os dias atuais.
Poesia Liberdade traz o prazer na insubordinação elegante e lírica de Murilo Mendes.
Funções da Linguagem
de Samira Chalhub, para perceber, um pouco, as possibilidades tantas do uso do código poético.
Mulheres de palavra – Adélia Prado, Hannah Arendt, Cecília Meirelles, Simone Weil, Teresa de Ávila, coletânea de reflexões sobre a obra destas mulheres, organizada por Maria Clara Bingemer e Eliana Yunes
Murilo, Cecília e Drummond – 100 anos com Deus na poesia brasileira
, transcrição de um seminário realizado pelos departamentos de Letras e de Teologia da PUC-Rio sobre a espiritualidade presente na obra dos três poetas, organizada por Eliana Yunes e Maria Clara Bingemer.
Corpo – Território do Sagrado
de Evaristo Eduardo de Miranda, análise do simbolismo do corpo a partir da perspectiva judaico-cristã.

Dois de cabeceira há vários meses:
O Senhor é meu Pastor de Leonardo Boff.
Os melhores poemas de Amor da sabedoria religiosa de todos os tempos
– seleção, apresentação e tradução de José Jorge de Carvalho.


Que cinco (5) livros levarias para uma ilha deserta?
Com tamanha limitação:
Poesia Reunida – Adélia Prado (Siciliano)
Escritos de Santa Teresa de Ávila (Edições Carmelitanas e Edições Loyola)
A Bíblia Sagrada, fonte de inspiração diária.
O imprescindível Huaiss.
E já que não posso levar nenhum CD, Chico Buarque do Brasil organizado por Rinaldo de Fernandes.
Bem escondidinho, o meu caderno, um estojo com lápis, borracha e apontador.

A quem vais passar este testemunho e por quê?
Bia
- letracriada.weblogger.terra.com.br
Júlio Castro - oinventario.blogspot.com
Kathy - atravesdemim.zip.net
Porque gostaria de saber de onde os três tiram inspiração para tão instigantes escritas.

Bia, Júlio e Kathy, meus queridos, é só copiar as perguntinhas que aí estão, respondê-las e matar a nossa curiosidade.
Beijos, carinho.

sábado, abril 23, 2005

Y UNIRÉ LAS PUNTAS DE UN MISMO LAZO

Enquanto puxas a fita
Meu coração se queda
A esperar por sinais
Cada gesto teu passo leve
Laço solto na busca
Curiosa e atenta procura

A caixa aberta...
Ainda resta
A seda em tuas mãos
Levantas em suspense a cabeça
Tentando adivinhar

Pouco a pouco, surpresa
Ilumina-se o mistério
Sinto-me até esquecida
Vendo-te fitar o passado
Expressão enternecida
Refletindo-se em dourados
Reflexos de uma paixão

Então buscas meu olhar
E soa com tal zelo o beijo
Que ofereces ao presente...

É como se beijasses a vida
Revelada em coração
Apanhas de volta a fita
Em teus olhos um brilho, um riso
Em meu lapso um riso, alívio...

Unem-se para além do abraço
Dois pulsares, uma alma...
Pontas de um mesmo laço.

______________________
Inspirado em Yo vengo ofrecer mi corazón de Fito Paez, de quem venho roubando as pontas de um mesmo laço.
Dedicado à Mercedes Sosa.
.

quarta-feira, abril 20, 2005

IMPERATIVO

Abre-te às feridas d’alma,
Dá-me tua aspiração...
Revelar-te-ei liberdade.

Abre-te à fantasia,
Dá-me teus desejos...
Desvendar-te-ei festejos.

No improvável, no delírio,
No limite ou nitidez,
Na sede...
Recosta-te à fonte.

No pecado ou santidade,
No anseio ou na aridez,
No cansaço...
Recompõe-te tenda.


Abre-te às fendas d’alma.
Devolve-me a liberdade... (só então)
Desvelar-me-ei amor.

.
(Inspirado por Teresa de Ávila e dedicado a um amigo querido)
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domingo, abril 17, 2005

A PEREGRINA

A caminhada se faz sentir na dormência das pernas e o irrealizável, na demência da alma. E será sempre assim nos arrastados dias de areias quentes. A claridade é tal que lhe chega a turvar a vista. As trilhas se abrem para em seguida se desfazerem ao sabor dos ventos, alterando-se a cada instante. A aridez mostra que a liberdade do caminho não basta, se não se tem para onde ir. Sente-se prisioneira de seu próprio labirinto. Quisera de volta o aconchego da tenda onde o frio e a escuridão da noite não a alcançam. De onde, mesmo sem ver as estrelas, pode divisar o horizonte.
Descobre-se seguindo os mesmos rastros deixados por dias e dias de caminhada. Frestas se abrem repentinamente, obrigando-a a estancar. Olha ao redor. A paisagem monótona repete-se à direita, à esquerda, à frente, atrás. Ao alcance da vista, nada que tenha vida. Sons, somente, os do vento insuportável, que sem piedade fere a pele já tão curtida pelo sol. Senta-se.
O pensamento vaga por tempos ingênuos, quando o coração era contente. Olha para o próprio peito, não o vê. Onde o terá esquecido? Indaga pelos amores, se é que existiram. Mas, se não eram reais, por que se foi desfazendo em cada um deles?
É tarde e da secura em que se encontra, nem lágrimas consegue tirar. Põe-se em pé. Talvez encontre algo para beber. Ao longe, a fosforescência, já tão conhecida, da miragem, insistentemente, produzida pelo desejo. Mesmo na desesperança, segue.
O fim da tarde encontra-a trôpega, sedenta, confusa. Parece ver, logo ali uma construção de pedras. Arrasta-se. Está muito perto. Mais um esforço e os sentidos se perdem.
Dá-me de beber, ouve, ainda entorpecida. Surpreende-se, pois não é sua voz a pedir. Contra o sol tem dificuldade em focalizar o contorno a sua frente. Ouve o seu, já quase esquecido, nome sussurrado por aquela voz tão terna que insiste: dá-me de beber. De um salto, levanta-se, apruma-se. Tenta dizer que há tempos vaga, sem sucesso, por aqueles sítios em busca de água, quando ele lhe aponta uma fonte. Majestosa, feita de pedras, ornada pelo musgo que o tempo ali fez brotar, esparramando água em abundância. Surpresa, não consegue se aproximar. É preciso que ele a leve pela mão. Enquanto caminham seus olhares se cruzam rapidamente. Quanto mel! Incapaz de suportar as promessas ali escondidas, fixa-se à fonte. Vasculha os seus pertences e encontrando uma caneca oferece-a ao homem que a recusa dizendo: minha sede é a tua sede. Vem. Sacia-a! É quase uma senha. Farta-se, esparrama-se, encharca-se, lava-se. Reencontra a alegria. As vestes limpas readquirem as cores originais. No marrom da saia, sobressai o branco do avental. Sente-se linda. Acomoda-se ao sol, para que seus longos cabelos sequem e voltem a brilhar. Só então, cria coragem e olha de frente aquele homem. Esforça-se por retribuir toda a aceitação refletida naquele sorriso. A um gesto dele, deita a cabeça em seu colo deleitando-se em ouvir o próprio nome sendo repetido, junto às doces certezas do verdadeiro afeto. Embalada pela suave voz do desconhecido, adormece e sonha. Uma deslumbrante carruagem de fogo chega, vinda dos céus. Embarcam. Aninham-se, e lá se vão. “Duas pontas de um mesmo laço”, finalmente juntas.
(Dedicado à Maria do Egito)
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terça-feira, abril 12, 2005

INÉRCIA

Entre duros ângulos
Cruzo os dedos.
Tento vôo de andorinha.
Nem se move a parede,
Nem a sombra que nela pousa.

Entro em giro desertor.
Cruzo ombros.
Lanço um olhar de soslaio.
Nem se move a minha alma,
Nem a ave que nela aterra.

Esvazio a minha mente,
Cruzo em prece as mãos,
Pousando-as sobre o peito.
Nem se move este silêncio,
Nem a chaga que ao coração assombra...

(Continuo dedicando a Anselm Grün)
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terça-feira, abril 05, 2005

SEM EIRA NEM BEIRA

revirei minha bolsa
olhei dentro de armários
vasculhei dicionários
estantes, memórias, instantes
andarilha da alma
me embrenhei por escuros
abecedários vazios
desisti de meu verso invertido
vocabulário perdido

sem eira nem beira
encontrei-me despida
catadora do olhar
em reversa palavra
emprenhei-me da luz
serena a esperar
no prazo o ato
parto de mim
finalmente a dor
há de se cumprir poesia

(Dedicado a Anselm Grün)
>

sábado, abril 02, 2005

TOQUE NA DESPEDIDA

Vôo que não saiu do solo
Mãos que não se tocaram

Meus olhos intactos
Que nunca viram os teus
Fixam a janela vazia
Só tua suave luz
Revela a graça
Da confiante entrega
À Divina Misericórdia

Voa nos cânticos
Das mãos que agora se entrelaçam
Leva junto o meu olhar
Serenado pelos sinais
Que a nós ofereceste

_________________________________

Naquele exato instante

Via-te entre brancos e azuis

Abraçava-te

E já eras recebido

Pela misericórdia do Pai

Sem saber, despedia-me

Em meus braços, as nuvens, lembrança

Em teu sorriso, a esperança, coragem

Chegaste

Prossigo...

______________________________

(Dedicado a João Paulo II)

>


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quarta-feira, março 30, 2005

SEM SENTIDO

,
Lê-me nas tuas entrelinhas
É lá que minh' alma se engata
Quando o coração descarrilha.

(Dedicado a Rollo May)
,

domingo, março 27, 2005

POR AMOR

Por amor me transformei no vento
A levar seu eco
A soprar seu canto

Por amor me abri estrela
A iluminar seu rastro
E apagar seu medo

Me tornei criança
Que brinca, que foge
Que corre, que abraça

Por amor eu me fiz mistério
Por amor eu me vi deserto
Olho no olho
Passo a passo
Verbo no verbo
Conquistei caminhos

Por amor me reparti em doze
Me religuei cordeiro
Me transmutei suave
Me transpassei de dores
Entreguei minha voz
Meu corpo, alma e coração

Por amor, por você
Adormeci no inferno
Enfrentei batalhas
Ao terceiro dia
Explodi sublime
Me encontrei sereno
A me recomeçar.

(Dedicado aos amigos que por aqui passam, parceiros na celebração do Amor)

Feliz Páscoa!
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terça-feira, março 22, 2005

ROGATIVAS

I
Vem...
Prende-me
Nas doces vagas de teu olhar atônito
Embala-me
Na brisa nobre de tua voz poética
Carrega-me
Com firmeza em tuas pegadas vastas.
Vem...
Transforma-te em oásis
Nas secas dunas de meu coração.



II
Vem...
Traze tuas mãos aladas
Leva-me da ilusão rasteira
Para um concreto vôo.
Rapta-me em arroubo e ar.

Faze-me
Volteio em sonhos
Sobrevoando mares.

Cumpre-te
Escancarado anseio
Planando por desertos.

Seremos
Sede e alento,
Hálito em aspiração,
Dúvida na certeza,
Involuta revoada.
Aves livres na presença
Da tormenta serenada.
Vem!

(Dedicado a Santa Catarina de Siena)
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Continuo com saudades... Beijos, carinho.
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sábado, março 19, 2005

NOVAS ÁGUAS

o que pede a elas
meu coração delirante
um rio de trocas
porto de passagem
uma paixão tropical
miragem do mar
silêncio amoroso
amarrado nas amarras
do atol enxurrada
só uma vez
revés de aluvião anseio

o que pede a elas
meu coração insensato
que, ora se encharca, ora se encolhe
em afogada calmaria
meu espanto, meu pranto
meu confronto e meu conforto
minha desolação
uma vez só uma vez
no mistério das ondas
se destino sede escolha
quem me dera
ser-te apenas navegante.

(São José, pelo menos hoje, no nosso dia, responde-me...)

(Algum tempo depois, já ouço tua voz. Obrigada.)

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Preciso dizer aos amigos que por dificuldades técnicas não tenho retribuído às visitas.

Em breve estarei matando minha enorme saudade. Agradeço a todos pela paciência e...
Beijos, carinho.
,

quarta-feira, março 16, 2005

ÁGUAS DE MARÇO

dizem que fecham o verão
(mas)
sequer sabemos os rumos dos colchões
que a enxurrada carrega.
tampas de fogões,
brinquedos boiando nos becos,
um pé de sapato pobre descalço
(o que terá sido de seu par)
são águas banhadas na acidez
que o progresso expele,
trazendo para as calçadas
a incapacidade humana de se humanizar.
águas de março,
procura de vida,
mortificando o que resta
até o outono chegar.

para o povo penitente
que já não mais se agüenta
sendo alagação e enxurro,
águas de março,
que tragam o diferente
ânimo lavando canseira,
aquela semente regada
na corredeira da esperança...
a mudança de estação.

(Enviado a São José)
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quarta-feira, março 09, 2005

O OLHAR POÉTICO

Alguns pensamentos desconexos...

Se procuro o que é bom e belo tendo-os de antemão definidos, restrinjo a minha busca a um simples olhar no espelho.
Vejo-me, narcísica, a me contemplar e a realimentar minha cegueira.
Moldura apagada, deixada à sombra, é tudo o que está ao meu redor.
É o olhar da ignorância, da incompreensão, do desdém. Nega a existência da vida. Aparta e divide. É capaz de destruir e aniquilar.
Mas toda aventura humana que se traduziu no bem e no belo, partiu do olhar poético de alguém sobre o mundo, sobre o outro, sobre as coisas.
O olhar alfabetizado na sintaxe da poesia concentra-se, também, fora de si mesmo. Observa, apreende. Contempla. Permite-se a abertura dos sentidos, decifrando e aceitando o sentido inerente a tudo.
Sem sentimentalismo, o que torna uma coisa bonita ou feia é o meu olhar sobre ela.
Se é de aceitação, o cosmo, a mim, se revela. Sai das trevas.
Se é de interesse, o outro, a mim, se desvela. É compreendido. Ilumina-se. Ao se iluminar acaba por iluminar-me.
O olhar poético, o da emoção e do sentimento, leva-me ao encontro do outro, trazendo-o para mim. Na aproximação, a descoberta da beleza e da bondade, atributos de todos os seres humanos.
A visão poética é assim, humanizante.
A única capaz de ler "os vestígios de esperança que tornam a vida mais humana".
A única capaz de fazer da vida uma possibilidade concreta, verdadeiramente boa, verdadeiramente bela.
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... e como é bom delirar.
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(Dedicado a todos os blog-amigos, parceiros pelos caminhos dos delírios poéticos.)
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terça-feira, março 08, 2005

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

O que dizer para a mulher espancada pelo marido bêbado, desempregado crônico.
O que dizer para ela que, ainda por cima, ouve da vizinha de barraco – se apanhou foi porque mereceu.
O que vou dizer para a mulher-menina que mal alcança a janela do carro, quando ela dança na boquinha da garrafa, em troca de um trocado. O que dizer, quando é recompensada por algum safado.
O que posso falar para a mulher, mãe a espera do filho na porta da FEBEM, quando recebe de volta um cadáver, sem uma justificativa ao menos.
Que respostas dou à mulher arrastando os próprios filhos por uma cidade que os chuta como se fossem trastes.
Como encarar a mulher que deu tudo o que tinha para salvar a vida do filho jurado de morte tão cedo.
E aquela que mesmo trabalhando dobrado recebe a metade.
O que responder para a mulher-gerente-de-rh que diz para outra – você é bonita demais, inteligente demais, não tem o perfil.
Como me dirigir à mulher-pura que olha para outra mulher com olhar de desdém.
Como conversar com a mãe, orgulhosa do filho, que com apenas 13 anos já é um pegador de menininhas. E com as mães das menininhas.
E com a que instiga o filho - se apanhar na rua tem que bater.
O que comemorar com mulheres-damas-de-ferro, as que contrariam o destino, parindo a guerra.

Estou sem ter o que dizer.
De repente a memória me traz a figura sorridente da Ir. Dorothy... aquela que mesmo abençoando seus assassinos não conseguiu estancar o disparo da intolerância.
Quisera fazer festa. Mas frente à tanta insanidade... só consigo gritar.
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domingo, março 06, 2005

ENTRE ASPAS

Amar... apesar de tudo!
Amar... apesar do medo, da ansiedade, da angústia, da incerteza.
Amar... apesar do passado, do futuro... apesar do presente.
Amar... apesar dos impasses, das dificuldades, dos problemas.
Amar... apesar das impossibilidades.
Amar... apesar do mal, da destruição, da ameaça, do coração de pedra.
Amar... apesar da separação, da indefinição.
Amar... apesar da sombra.
Amar... apesar do outro.
Amar... apesar de mim.
Amar... apesar de Deus.
Amar...
Hoje, mais que nunca, amar.
Amar... a porta que dá acesso ao jardim.


A poesia acima foi extraída do livro “Amar... apesar de tudo” de Jean-Yves Leloup, filósofo, padre ortodoxo (hesicasta), teólogo, autor de numerosas obras de espiritualidade, conferencista. Primeiro livro dele que li. Ou fui por ele relida. Este olhar, o libertador, o da independência, me acompanha desde então. Nada mais me prende se apreendo as dimensões do amar. Procuro ir em frente, apesar dos pesares. E no titubeio, volto-me para este olhar e me deixo olhar também.

Dedicado às mulheres.
Dedicado aos homens.
Dedicado às jovens, aos jovens, às crianças.
Dedicado a todos, enfim, seja qual for o credo, a raça, a classe social, a profissão.
Pois chegará o tempo em que não haverá mais necessidade de um dia para a mulher.
Todos os 365, serão do Amor.
Apesar de...
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sexta-feira, março 04, 2005

SOU CAIPIRA PIRA-PORA-NOSSA

Eu não consigo andar bem
Vivo o maior rebuliço
Chego a imaginar também
Que me puseram feitiço

Sempre muito magoada
Sempre muito saudosa
Não levo a vida ditosa
De mulher apaixonada

Mas há algo que existe
A coisa até que é jeitosa
Meu coração não resiste
Pois é graça preciosa

No doce toque da viola
Tudo muda de repente
É ela quem me consola
De triste, passo a contente

Ao pontear com o Almir
Me arrasta Renato Teixeira
Ensaio um novo sorrir
Sinto-me até mais faceira

Arrisco meu sonho de amor
Com cheiro de mato apeiro
Rendo-me ao vivo calor
Ardendo não só co’a viola
Se em brasa me olha o violeiro

(Dedicado a Patativa do Assaré)

quarta-feira, março 02, 2005

O ECO - A SEDE - O AMOR

dá-me de beber. .tenho sede.. olha o fundo do teu poço escuro.. amedronta-me este desejo que não tem fim.. estarei junto a ti.. o deserto ressecou meu coração.. a água foi derramada em todos os corações.. espero por aquele que me saciará
todas as sedes.. eu sou a água viva.. mas eras tu a me pedir o que beber..
a esperança não decepciona.. nem sequer tens uma caneca.. beberei junto a ti..
e me arrancarás do deserto?. sim, mata a minha sede.. é da minha secura a tua sede!. vem, dá-me de beber, pois é desta sede que falo.. agora pressinto..
vem, somos. . .... o amor!. o amor, vem.
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(Referência: Leituras do Terceiro Domingo da Quaresma)